sábado, 13 de novembro de 2010

Ser coisas tem dessas


Eu engulo a saliva como se fosse mar,  
eu quero esse mar,  
invento frases e frases  
afim de alcançar,  
quero te alcançar.  
Eu me sacudo  
cabelos e membros,  
entorno o copo  
só pra ver se não me lembro  
mas acordo amanhã cheia de pensamentos,  
a cabeça é pesada   
não esvazia,   
eu me quero vazia,  
me engulo e vomito todos os dias.

 
Ser tem dessas coisas.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Vitória


Primeiro eu aceitei o trato, depois tentei me familiarizar com a condição. Sim, porque só aceitamos algo quando enxergamos um resquício semelhante a nós ou aquilo com o qual convivemos.  
Meu nome nada tinha a ver com a prática, na minha vida passava longe os euforismos e braços erguidos gritando – Vitória! Conto nos dedos os episódio em que protagonizei cenas como essa. Sempre que escrevo meu nome tenho vontade de pôr no final um ponto de exclamação. Mas exclamar a que? O que? Quem é essa tal de Vitória que cultua derrotas “passeando” por opção entre suas tristezas? Essa Vitória sem ponto de exclamação, sou eu. Trinta e poucos anos para chegar aos quarenta e Vitória, ponto final. Onde já se viu me entupir de “estímulo feliz”? Me apresento a alguém e logo penso que eu tenho que vencer! Tenho que conseguir sair com esse cara e tenho que conseguir que ele me ligue, que se apaixone e que o sexo seja maravilhoso, tenho que conseguir o emprego, tenho que conseguir ganhar na mega-sena. Eu me obrigo a ter sentido entende? Mas quanto mais vou em busca de coerência mais me afasto de qualquer alcance...vitorioso. Penso nos meus pais todos os dias e ainda não consegui encontrar um motivo. Só sei que o meu nome é Vitória, apenas um vestido bonito que quiseram me dar. A verdade é que o nome pouco importa, pode ser eu ou você,

eu ou você.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Doente de saber


Estive amando e isso me ocupava. Me ocupava tanto que meu corpo parecia cansado, um cansaço físico que passou a me incomodar. As dores no corpo vinham como se tivesse levado uma surra, mas ninguém havia encostado em mim. Estive amando como quem quer e não como quem ama. Queria o olhar, queria a boca, queria o abraço, eu queria... não tive sucesso nos meus desejos. Canalizei todas as forças que eu tinha dentro do meu corpo pequeno e expulsei numa só direção, com toda a minha alma cálida, com todo o meu corpo doente da surra.
Esse meu corpo pequeno, com hematomas invisíveis, foi pedindo socorro de pouco em pouco, de lamento em lamento.Há quem diga que era “não saber o que queria”, mas o mal era justamente o contrário: sabia exatamente o que eu queria.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

seserenofor




Sereno feito um canto de pássaro lá longe, 
no meu ouvido perto.
Fica perto de mim,
qualquer coisa calma que eu tenha em mim,
qualquer coisa de pequeno que caiba nas mãos,
qualquer carta de bolso que eu possa levar.
Olha as minhas pequenas garras
estão tão vazias,
mas se for sereno vai saber ficar sem
e com ou sem terá
e longe ou perto será,
canto de pássaro.


Sereno,
qualquer coisa que eu possa
su
por
tar

domingo, 17 de outubro de 2010

Encontro dos distraíados ou O desencontro


A urgência é uma sirene tocando, insistindo aos ouvidos e te denuncia cada vez que você puxa o ar e picota a entrada dele no seu peito, fazendo mini-respirações em pequenos espaços de tempo aos quais submetemos a nossa energia. Urgente, “não há tempo a perder” e quanto mais se faz dessa ideia um lema, mais perde-se tempo. Sua vida passa a ser dividida em minutos, a urgência transforma o sentimento em uma bomba relógio que sempre explode, sempre renasce das cinzas. Uma dose alta de adrenalina que nos faz voar e cair em segundos, mas o pior de tudo é pensar quem é o condutor da história. Você, que se esconde atrás de si mesmo, que forja acidentes, que premedita cada passo e cada ferida e que chora sem surpresa dos seus finais.  
Olha-se tanto para a vida que quase não se enxerga ela, tudo vira um borrão na velocidade do veículo. A urgência não permite distração, ela seria o erro fatal. E quem somos nós quando não estamos distraídos? Olhos esbugalhados, inchados, ocupados em sofrer adiantado só para não sofrer atrasado – que diferença faz? Quem está atento não se surpreende nem se assusta, isso é virtude dos distraídos.  
Foi na distração que eu me apaixonei por um rosto que estava sempre na minha frente e eu não via. Foi por ter me perdido de mim que eu encontrei você. Tão assustada, ainda busquei urgentemente me reorganizar, me encontrar, e notei que você sumia da minha visão, lento e disforme. Mesmo mergulhada na minha urgência burra, o coração, que é o órgão menos atento do corpo, se desconcentra e se perde e eu te amava sem saber. A adrenalina viciante do “aqui e agora” virou vício e me consumia os dias, me fazia fragmentos de mim. Quis tanto comer o tempo que ele me comeu: os olhos tensos; a boca que cuspia teorias fajutas; os braços perdidos sem o abraço; o tempo me comeu para que eu morresse e renascesse nua – afinal é como se nasce: sem nada. A vida não é um encontro marcado.


Você foi o meu melhor desencontro.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Me calas

Me ensina a fazer verão com essa chuva rala.
Faz meu corpo boca, fala,
me calas.
Me ensina a dizer não
descobir o gosto do sim,
meio sede, meio inteiro
meio em mim.
Me encontra sem eu estar
nem sei onde eu fico,
me visto, me pinto .
Me coma com as mãos,
sujo, faminto.
Você.
Me seja você.
Me ensina com a boca que me fala,
molha feito chuva rala,
língua queima como sol de verão.
Você.
Me calas,
sem que eu tenha tempo pra dizer não.
O sim, o gosto da descoberta.
Você.
Me ensina a ter
você.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Passo a passo

O teu toque seco  
No meu corpo úmido  
Faz cócegas, riso,
Quando eu já fui.

O teu olhar fixo  
Cara a cara é espelho. 
me deixa nua em pelo  
quando eu já estou.

Seu pescoço alinhado  
Chama dente e língua, 
sugo o sangue da vítima  
quando eu já assassina.

O teu beijo escorrega, 
deixa uma pista, 
molha a cintura
quando abaixo fica.

O teu mundo é grande  
na cama infinita, 
me perco na esquina  
quando eu já 


sua


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Análise de um culpado


Escher – Auto-retrato
Tenho chorado entre pausas e compassos estranhos. Tenho querido a rapidez e por isso picotado o sofrimento, acelerado o inacelerável tempo d’alma. Tenho me impedido de chegar até a ponta da pedra só porque de lá eu veria tudo amplo e doeria nos olhos a claridade. Entre uma pausa e outra, reacendo a ilusão como quem bebe num pote vazio e engole o ar com sede. Tenho ansiado pela salvação, entregando o coração aos leões, sucumbindo por derrame de sangue pois a salvação é diferente da cura. A salvação nos permite lembranças já a cura é a vontade do esquecimento. Assim, tenho me colocado cara a cara com o perigo, cutucado e arrebentado feridas que por natureza secariam, mas eu tenho querido o “para sempre” e por isso tenho amolecido as cascas, tenho buscado a dor para ter o prazer doloroso que é sentir-se viva no tempo, o mesmo que insiste em se renovar sob a minha negação. Tenho ralentado as palavras, me apegado a lembranças soltas que me vem no mais puro sadomasoquismo de mim. Tenho formado montes de cartas na sala, todas inacabadas e curtas. Cartas unifraseadas, eu única de mim. Tenho querido a eternidade dentro dessa mortalidade que se chama viver. Tenho insistido na mesma posição do corpo e com isso adormecido o presente. Tenho sido mais o breu de meus olhos fechados do que a visão real por onde se esbarra.


Viver é sobreviver a si mesmo.

domingo, 26 de setembro de 2010

Nesse meio tempo que se chama...

Ela se via à espera e como toda espera, era calada e branca. Vazia - Mas esse vazio da espera é tão cheio, mas tão cheio que é vazio entende? Pensou por um instante. 
Passava os olhos por textos que ela escrevera em dias de tumulto. Aquelas frases e parágrafos poderiam ser escritos mil vezes que seriam iguais – talvez seja isso o que chamam de destino. Ela tinha de escrever aqueles textos, hoje considerados antigos, era como um modo de liberdade personificada. Sentia cada um deles com a voracidade de um “agora”. Cada palavra nua era ela vestida ou vice e versa.
Felícia sabia que, apesar de cada carta e cada texto terem dono, ele não saberia entender a grandeza que ela lhes oferecia pois essa grandeza, no papel, era vulnerável a pequenez dos homens que tem medo de ver. Seus escritos eram tão ela, que nem mesmo a própria conseguia enxergar com clareza. Sabia que todos os textos transbordavam numa nudez quase que sem-vergonha - quase.
Mas a espera. Felícia agora vivia a espera. E como toda ela, engajada em viver, não havia outra face se não a de quem espera, não havia uma posição para as mãos pois a espera nos faz esquecer que temos mãos, não havia um ponto fixo para o olhar, ele estava perdido naquele nada que é a visão da espera. Não havia ela naqueles dias, só havia a espera, esta que sem pudor consegue ser ao mesmo tempo o seu avesso, o inesperado. Não existia tempo para contar, somente o cansaço e o grande vazio branco. Nem uma palavra, nem um perdão,

a espera.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Eu só sei viver



Nós nascemos com vida e morremos sem ela, por isso eu tenho medo da morte. Eu só sei viver, eu não sei morrer! Mas as vezes a gente morre de dia e nem percebe.
Tenho vivido atenta, sempre conferindo a presença de ar no meu peito. A morte não é uma escolha, se fosse, toda vez que prendêssemos a respiração morreríamos. Suspiro muitas vezes pois viver cansa mas ainda assim o que sei fazer e portanto é a minha escolha, viver, viver, viver. Vivo tanto que as vezes morro no meio do caminho.
O ser humano é mais frágil do que se imagina. Morre-se por viver demais e por colocarmos a nossa conta em risco toda vez que se quer pagar pra ver. Morre-se num cruzamento de ruas congestionadas, morre-se à luz do dia ou no silêncio da noite, morre-se afogado em uma lágrima, morre-se muito de dores no peito, por um aperto cruel que pressiona todos os sentimentos como fossem espremidos, morre-se. Morre-se toda vez que se vive.


Acho que estou aprendendo morrer.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Devolva-me



Você deu toda a sua alma para ele, mesmo sem saber exatamente o que era isso, ofereceu cada partícula sua que continha o seu próprio cheiro. Você deu o seu cheiro a ele. Cada instante da sua vida era dele, cada palavra que se vestisse de metáfora era por causa dele e já vinha com o nome da inspiração nas entrelinhas: ele. Hoje você colocou uma placa na porta de casa, “procura-se” e a vizinha veio dizer: minha filha, você esqueceu de escrever o que você procura, com o coração aflito você explicou a ela que era o que estava escrito lá, estava à procura de si mesma. Se procurando desesperadamente, entre a angústia de se ter de volta e a necessidade da devolução.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O pensamento e o cone


Tropeçou nos cones que cercavam a areia delimitando o espaço. Estava tão distraída admirando aqueles garotos de pernas ligeiras que nem pôde ver a praia demarcada por faixas e cones laranja e branco

– Ei! Cuidado aí... Gritou um moleque de uns doze anos. Sem perceber, ela havia derrubado um dos cones. Os meninos faziam aqueles movimentos de zigue e zague com a bola que o olhar de qualquer um se deixa hipnotizar. Pôs o cone de volta no lugar e resolveu terminar a sua caminhada por ali. Ainda pôde escutar o menino resmungar, “mulher louca”, mas não deu bola.

Gostava de caminhar na praia porque lá parecia um lugar infinito, nunca aguentava chegar até o final e isso sempre deixava um gostinho de "quero mais" que ela guardava para o dia seguinte. Mas naquele dia a largura sem fim da areia foi finalizada por aqueles cones que saltaram de repente na sua frente.

Já em casa, enquanto tomava banho para tirar o sal e a areia, buscava um pensamento antigo que já não tinha novidade pra contar. Tomou banho com as lembranças e se secou com possíveis finais felizes. Foi até a cozinha esquentar o almoço. Não tinha vontade e comeu só com a fome. Arrumou o armário como pretexto de se perder em pensamentos - Coisas como arrumar armário facilitam a organização dos pensamentos. Separou umas blusas daqui, outras de lá, tudo na mais perfeita ordem. Suas arrumações com coisas eram cheias de coerência, facilitando encontrá-las quando precisasse. Assim como as roupas, a coerência só pertencia a ela, o que fazia dela a única que entendia seu armário. Lá no fundo avistou uma blusa que não usava mais e naquele momento lembrou novamente do assunto e se agarrou aos últimos fatos na esperança de poder reformular, repensar, mas tudo não saía do lugar.

Repassou as tarefas do dia e entre uma coisa e outra lá estava o mesmo fato, a mesma história. Havia uma coisa pronta e coisa pronta não dá trabalho nem papo. Se sentiu acuada pois nada tinha a pensar mais sobre aquele assunto. Descobriu que o pensamento também tinha fim e que ele era determinado pela lembrança. Andava distraída demais, louca demais para perceber.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Identidade clandestina

Leblon - RJ
Escuta a tua respiração,
escuta essa certeza de vida. 
Escute a certeza do teu corpo úmido
longínquo,
tão seu que é perto demais para se ver.
Sente que a saliva escorre,
que o teu cabelo repousa frouxo no teto de seus pensamentos.
Não abra os olhos por alguns instantes.
Existem coisas que são vistas a olhos nus
e outras que são vistas de olhos fechados:
Portas abertas servem para entrar,
igrejas fechadas adormecem em cristo.
Ouve a tua respiração pesada.
Porque afunda em si?
Esse elevador que é o teu tórax inflando e esvaziando,
essa tua dor de desembarcar no ultimo andar.
És um corpo com mãos,
um corpo com formas.
Deite-se como os teus braços,
repouse soluto como as tuas pernas,
esse corpo que te torna possível,
lágrima que te torna real.
Quem mora dentro de ti? 
Me diga e eu te darei um rosto.










quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Alguma coisa sobre a falta



Saudade é uma imaginação ousada, roça no meu rosto imitando a sua barba. Arrepia a minha nuca com a língua que me falta. E falta tanto que a minha espera transborda. Meu corpo arrepiado precipita o seu beijo, é a saudade repassando o caminho por onde você já esteve e ela só não me mata porque promete morrer, na rendição o homicídio doloso.

Sou como o copo sujo de leite, que tem a borda marcada pela linha branca, meu corpo é da sua medida: seco até a borda, cheio de sede. Sou qualquer coisa desesperada e aflita que se entrega às lembranças das mãos e do beijo denunciando o desejo infinito. Essa urgência infantil que me faz caminhar do frio ao fogo olhando a noite quieta, que adormece às preces prometendo o dia seguinte. O sol nasce longe e esse silêncio que perpetua inconveniente. Dizem que o mergulho num abraço fundo deve ser contido quando estampado na face, mas como disfarçar a morte da saudade? Como ler e reler um livro e não ansiar pelas páginas seguintes?

Meu exagero está do lado de dentro, o que escapa de mim são meus olhos perdidos te fitando, são os calafrios dos seus "quase- toques" na madrugada inconsciente, são as palavras que digo e em seguida disfarço desajeitada. E é só quando encontro seus braços que busco, cheia de fome, reafirmar suas mãos. Assassinamos a saudade entre beijos afoitos e apertões famintos.

Não existe crime, existe eu e você.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Rua sem saída


Não foi porque eu li Clarice e ela sempre me convence. Também não foi por um de seus vários “nãos” nem muito menos por aquele ligeiro “sim”. Não foi por eu não descer as escadas e me recusar matar os degraus para nos salvar. Não foi um daqueles gotejar de lágrimas nem soluço nervoso pois os olhos não se puseram a transbordar. Não foi por gastar a saliva, as horas vestida e nenhuma atenção especial. Não foi por eu ser mulher ou talvez uma parcela de culpa tenha sido por minha feminilidade, que não está nos vestidos não vestidos nem nas saias que desdenho. Não foi por deixar de avisar nem foi por calar de cansaço. Não foi pelo desentendimento nem pela coerência encontrada apenas na confusão. Não foi por não te amar.


Não foi.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Neruda

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos... 

Pablo Neruda
 

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Em boca fechada não entra mosca





Certas vezes me calei dizendo algo. Poucas foram as vezes que não falei com a intenção exata de não dizer. Será que fui compreendida? Estou pensando em reunir todas as minhas falas, ditas ou silenciadas e embrulhar numa caixa bem grande, com laço exagerado de fita numa cor bem chamativa e dar de presente, assim, no maior descaramento. Quem sabe a curiosidade e o carinho no ego façam com que minhas palavras sejam lidas. Mas muita coisa nem viveu, perdeu o sentido, ficou atrasada. As palavras também morrem e com elas um pouquinho de nós mesmos. O sonho de todo monólogo é virar um diálogo, uma conversa e nem sempre esse sonho se realiza.
Talvez eu deva não dizer mais. Calar-me para sempre. Passei alguns dias recolhida aos meus segredos, fiz questão de construir cada um deles, guardá-los bem seguro dentro de uma capa qualquer que servisse. Foi bom enquanto durou.


Acho que estou morrendo um pouquinho.














sábado, 7 de agosto de 2010

Minha ânsia por Vinicius ou Minha ânsia, por Vinicius

Ânsia 

"(...)
A carne fugiu
Desapareceu devagar, sombria, indistinta
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis?
Não vos bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis no balbucio da oração?
Carne que possui a carne
Onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria nesse vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei...
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar.
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...
Dá-me apenas a aurora, Senhor
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia."

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

...

e o vento frio que ressecava a pele, assobiava sério nos ouvidos dela. Nem a blusa branca de mangas compridas aquecia o corpo, nem o vento frio esfriava aqueles constantes pensamentos. Na casa, nenhuma palavra no sofá, se quer alguma pendurada no varal esperando secar, nem mesmo no tanque de molho, nada. Seus dedos frios, seus pés escondidos pelas meias de algodão, eram tão menos importantes do que a espera. Podia resumir-se em uma figura, um corpo que ainda sentia frio por algum descuido da natureza. Um corpo. Toda mulher que espera é somente um corpo.