quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Tudo sob controle


Por vezes transbordo, passo da conta de mim, ou simplesmente deixo que meus anseios vivam sem limites. A verdade é que sou péssima com organização. Organizadora das minhas coisas, de mim, do que eu quero e do que passo a deixar de querer, sou totalmente sem jeito. E quando tento, é de modo tão precário, dó de mim. 
Procuro ter força, me esforço na humilde malandragem, tento me adivinhar e o mundo, falho de novo. É que tenho muitas partes ingenuas em mim, sobretudo quanto a o que fazer da vida, só me resta viver com as minhas armas, minhas "descobertas" tão ingenuas quanto as minhas não-descobertas.  
No fim das contas resta essa preguicinha (que não é bem preguiça), essa tranquilidade de ver as coisas da rede, porque no fundo, tudo em mim parte desse ponto de vista. Eu só simplesmente não sei até que ponto é boa a ansiedade que tenho antes mesmo de me preocupar com a minha saúde, com o que ela me causa ou a despreocupação de ir levando tudo numa boa. Mas é pra rede que sempre volto depois de ficar tentando ser gente grande. Nem de todas as arestas a gente consegue tomar conta, mesmo que sejam as próprias arestas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Paipilas auditivas


Meu silêncio que percorre ruas
Que esbarra em alguma coisa sempre
Se desmantela em burburinhos
Se desestabiliza e se arrepende
Meu silêncio tem um amor fiel ao som
Anda por aí, ouve música
Ele é tão silêncio
Tão meu
que eu juro
Inteiramente
Que são meus olhos
Que nele vomito ou guardo
Se resguarda e segue clichê
Meu silêncio é o que eu escuto
É, talvez, o que de mais expressivo eu tenha
Meu silêncio são meus cinco sentidos.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Filha única (aos meus amores)

Faço jus.
Minha condição de única me faz enxergar o amor inteiro único. Me faz amar concentrado, exagerado, no estilo "eu posso até morrer de fome". Eu que não sei entender como se diz "eu te amo" de maneira múltipla e metamórfica, já bem disse alguns amares, jurei e dei até sorriso. Ainda assim é inútil, fico sem entender o múltiplo de amor, que na minha matemática vai do zero ao dois. Eu que já amei mais de uma vez, que tenho mais de um amor, não entendo como isso pode acontecer.
Meu amor é a existência ímpar, una. Se te amo é porque não há outro no mundo. E no bate e volta, natural é que me reconheça, que jamais responda a "qualquer um na rua beija-flor". É grave doutor? - É, agudo. Problema de não compreender nunca meus amores terem tido outros amores. Não entendo tempo, passado, nem momento, entendo de amor eterno – eu, que já botei ponto final em história. Reinvento tempo e sentido pra explicar a singularidade de amor, de amar várias vezes e apenas uma na vida. É que amo um de cada vez, mesmo que ao mesmo tempo. Amo como uma perfeita filha única, porque não conheço outra forma de ser. Apesar do mundo me considerar "mais uma", nunca me ame como mais uma, preciso ser amada como uma, pois sou ignorante de amor com S.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Excitação da palavra

Era evidente a inquietação levando a apertar o braço alheio, resmungar qualquer coisa, pois "qualquer coisa" parece sempre um bom caminho quando encontra-se (se perde) nesse estado. Entre palpitações está uma dura certeza, doendo por não descobrir o nome, ardendo por pouco importar não ter um. Que respira em silêncio dentre o sócio-qualquer-coisa ou literalmente gritante quando num diálogo - como naqueles dias de solidão a dois, uma casa inteira em diálogo. Esse, que é tão perceptível, ligeiramente entendido. E depois a particular maneira de explicar com palavras e quando o lê me diz demorar para juntar os sentidos - não tem problema, diria amorosamente, é só um outro jeito de expressão, como uma foto.
É fácil demais vagar em exaltações que se afirmam na "falta". Mas falta do quê? Diria desnorteado, enquanto fuço todos os cantos. Falta é só um sintoma do que está sofrendo. Num ar frio por dentro, porque quente está, pouco importa explicação coerente pra quem está louco, doente, alucinado. Estar do frio ao fogo é coisa que a ciência não entenderia e a literatura, generosa, enfeita e faz respirar melhor. Porque essa coisa que borbulha e ao mesmo tempo paira como o vento, é o que de mais vivo existe no ser humano. Não finda ou tão somente é "eu te amo", é tudo passando ao mesmo tempo num tufão interior, que salta pra fora o, diria erótico:

eu quero você.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Daqui

Tenho tecido os momentos e aberto bem os olhos, expandindo o quanto melhor der pra ver. É assim que ultimamente tenho amado e doído, sem depender uma coisa da outra. O que tem me revelado. Na verdade tudo se revela nesse sagrado sim ao que vier. E veio. Vem.

A partir de então ela pôde assistir a quebra de preceitos, a ridicularização de si mesma, a concretização do seu rosto e todas as expressões, ela passou a ver quase tudo. Já nem lembrava como isso começou, era atropelada por mais um muro que desabava na sua frente - muro de concreto. Acontecia muito. Chegou ao ponto que clamava que parasse de ver a sua vida, tão maciça, de querer sair de onde está e ir para o campo. Tudo verde, o cheiro de terra, os cavalos e pessoas com aparência de tranquilidade, fora de perigo. Esquecia que sua vida viria com ela, que os olhos continuariam bem abertos e que até o campo poderia desabar na sua frente. E as vezes vertia em lágrimas que não esgotavam. Na lista das piores coisas, que se recria sempre, está a incapacidade de, no choro, não se esgotar.Tudo o que ela passou a querer era que se esgotasse, em palavras, em socos, em coisas que ela jamais diria e que achava ridículo. Esgotar um pouco amando, esgotar um pouco mais odiando e assim se esvair, até se acabar, até achar o final disso e querer começar de novo, é claro. Dispensar o dom de enxergar pois a claridade doía os olhos.

Eu vejo os que tem cadeira cativa e sorridentes moram nela, sofro só de pensar que se eu não fizer "alguma coisa", também possa ter uma cadeira para sempre minha. Não quero cadeiras nem salas de jantar com pessoas ocupadas em nascer e morrer. A vida é isso? As vezes penso tristemente que é. Tudo uma grande bobagem. A mais séria tolice que é o trabalho do que fazer com você mesma no mundo. Não é sobre o que vê do olho pra fora, é (sempre) sobre o que o dentro vê sentindo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Efeito Azul

enquanto solta a fumaça do cigarro
me engole
enquanto olho fixo
queimo
traga
dentro de mim
perco a noção
é um não sentir nada
e sentir tudo
que não quer que acabe

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Embriaguez

,ai de mim.
De repente estou calma, como quem cumpriu alguma coisa que fosse grave, dessas que se sente a vibração. Mas não sei de nada, tamanha a leveza quando se carrega o cumprimento da "coisa". O contraste de tudo, o vento , a rua, os passos. A ousadia de ser completa diante de tantas outras coisas que faltam. Ao mesmo tempo que se alcança um ápice, não qualquer, de um amadurecimento e testemunhar que nada passa do recém nascimento de uma escolha e portanto agir como quem começa do zero: desengonçada. A super-exigência que indica o absurdo da calma - se o amor é tão certo. O amor é tão certo. Quando não se bebe mais do gosto da arrogância e tudo é extremamente natural nas pontas desconhecidas de si mesmo e do outro. Como suportar o peso do "tudo" e do "nada"? Como? se a pelizinha da unha incomoda, o ponteiro faz "tic-tac", a conversa-ladainha é redundante. Redundante. Os dias da semana são cinco, meu rosto tem rugas de expressão de 24 anos e uma interrogação enorme, maior que uma metáfora, atingi o limite de todo o meu drama. Que começa na unha, que vai para o relógio, que... "tec-tec" do teclado. Eu não sei carregar o peso da calma, porque a realidade é tudo o que engole. Nunca estive tão serena e tão perdida.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

1 dose de tudo

Me exige, com sua simplicidade, uma esfera maior de coisas boas, ridiculariza todos os meus monstros, mesmo que não seja esse o objetivo. Está nesse mundo como eu, me deixando assim muito confusa - Pois na posição de organizadora das coisas vejo ele lado a lado com a natureza e essa coisa de generosidade de quem é - que como tudo ao redor, transmutando e vivendo, se mostra com suas caras infinitas, suas facetas indiscretas (e toda a sua melhor imperfeição), de repente o suco nunca foi não uniforme. Que me dói a falha de comunicação, pois ainda insisto em fantasias de relação homem e mulher (enquanto você nu). Fazendo assim necessário, preciso, incontrolável, morder os lábios. Meu peito é qualquer coisa quando me perco por puro orgulho e pelos minutos que gasto pensando nas mil maneiras de dizer, colocar, arrumar, não sirvo pra mais nada. (Essa tal devoção de amar, indeclarável).Chego num certo ponto que não sei mais sobre o que estou dizendo. Os borrões, a disposição de tudo, desde a fala ao branco dos olhos. Não é só a ansiedade de graça que me vem, é essa minha mania, a overdose/abstinência de uma sintonia ordinária do que tem ao meu redor, que me consome o descontrole dos átomos.



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Agoras


O tempo “enquanto” é um estado que engana
“Enquanto” não tem palavra depois
Enquanto nada
No meio
Enquanto tudo
“Enquanto” é só por agora
só que agora no plural.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Rascunho importante

Estou decidindo...estou decidindo...estou deci...
Sinto pelas horas que preciso, pre-ci-so, acertar as coisas na cabeça. Arrumar pra acreditar. Eu sinto muito por sua boca dizer coisas tão bonitas, suas mãos, com simplicidade, me ter, enquanto eu com dificuldades de assimilar. Sinto muito pelos sorrisos, pelas pidas, descontraídos. Por minha cabeça pirar com isso tudo e nem deixar pra depois, as vezes ali mesmo pensar numa coisa ruim, pra nos redimir dessa tal simplicidade de gostar um do outro. A propósito, sinto muito por gostar e imediatamente não saber o que fazer. Numa vida como essa, num a dois como nós e a perfeição que seria o presente mais merecido, me escapa. Eu sinto muito pelo descuido. E como sinto, pelas reticências em que me equilibro a dois anos e você bem no meio, antes, depois... Eu sinto muito por estar na roda viva, e portanto ser cruel, ingênua, perdida. Por me fugir, por fugir de você, por não deixar que seja esses meus trapinhos que eu adoro, enquanto você inesperadamente me olha, o cheiro no pescoço, as horas que não existem, podendo até confundir com pecado.

Eu sinto muito.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Tolice nossa, nos dai hoje

E se eu for hippie por um tempo, o suficiente pra eu voltar pra realidade continuar com a minha conta no banco, os finais de festa com roupa linda fedorenta a “fins”. Se eu ficasse deitada nesse sofá maravilhoso, caísse nas nuvens e doesse? o chão duro, frio! Se olhar pra frente fosse como faço agora, olhar, olhar sem fim nem foco – ah que maravilha... é tão gostoso estar de pijamas, não fazer nada algumas horas, ficar de roupa muito bem planejada com o dia e o lugar, algumas horas (bato o martelo em vão). E se talvez eu controlasse o tempo, transcorrendo, dividindo, escolhendo, até esquecer o forno ligado - a minha cara.


terça-feira, 24 de julho de 2012

Sobre tom e sintonia ou "essas" coisas

Ali, a figura de homem se formando, grave, quase um conceito de pé na minha frente, em tom de: sou real, seco e úmido, como a natureza. Ele era um tapa na cara.
De início, não havia possibilidade de aceitar o tapa. Era aquele homem e minhas inconformações, velhas e ranzinzas; meros caprichos quando pensava olhando pra ele; o que era intrigante e novo, mas ainda intangíveis quando voltada para mim mesma - uma urgência de ter que saber o que e como fazer com as coisas. Em algumas situações soube fazer o que toda mulher faz, o que não com o mesmo esforço faz o homem e abstraia sem esforço, sem nem se deixar saber que o fazia. Não da mesma forma que se engole sapo, mas como quem come mosca desconhecendo o que engoliu.
Vivendo com a benevolência de um tal sentimento...uma bondade tão “boa” que é preciso muita inteligência. Eu, que sustentava confortável meus defeitos, vou tentando ser elegante diante da... felicidade?ranjo os dentes. Cordial comigo mesma. Mas como todo ser humano, nada mais natural que com o tempo ajudasse a encontrar e ostentar também os defeitos do outro, estranho é continuar achando ele "o cara mais lindo que já existiu".
Pago com a mesma moeda que todo mundo, minha ingenuidade. Me redimo sob a luz do sentido, as vezes prudência - tantas vezes sufocante. A prudência pela prudência seria o nem nascer de um amor, penso já na loucura. E as voltas de admitir, digo tantas coisas, descubro que o que existe entre eu e esse "cara", jamais vou pronunciar.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Calado

sobre tuas vias, nada a declarar
gritamos tanto
como é possível?
olho
louco
eu
silêncio de fundo do mar
porém não mais só
porém imenso

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Se vai vivendo e morrendo

Sabe que amanhã o horário é as 7, em ponto. Quantos cansaços extrapolam a conta do corpo, um rosto fora de beleza ou gasta. Ninguém vai entender, é preciso maquiar para que seja possível uma outra compreensão de mim. Estou as oito no trabalho, treinadamente caminhando para a minha mesa, vestindo um rosto compreensível, roupas compreensíveis, “bom dia” reconhecível.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Do verbo ser

que me dá tanto dessa tranquilidade
se enerva em desóbvio
amolece em estalos
nunca vou te contar
por onde vou nua nas ruas
em cada ponta do cabelo
quando percorro a avenida
quando atravesso os sinais
caminhando sem voz
somente o ar de “sou vento”
capaz do seu nome jamais gritar
pegar o “tão” e guardar
que é tarde
todo mundo já sabe
é uma mulher a andar

sábado, 16 de junho de 2012

Me belisca

Ou uma lista de mudanças a serem tomadas ou qualquer coisa que se deva para uma vida melhor. Dessa forma. Antes fossem opções, o que parece é que são grandes rochas, tantas, todas, imponentes. É só olhar a rua, o Rio de Janeiro, um desespero sorridente, de boca treinada. Não tem estopim, do tudo ao nada; o vácuo de viver sem algo que...não é um estado de inércia e, por si só, não gera empenho para explicar, pois aqui está tudo cristalino e cristalizado. Se tivesse cor seria branco, se fosse alguém, não existiria. Ficam então as opções, inteiras e intactas, as palavras "é isso e ponto". Surge como um dos devaneios mais certos de uma vida? De repente tudo é tão conclusivo que mata. O que chega é rapidamente compactado por ideias acumuladas, antigas, conceitos longinquamente construídos ao suor de quem muito já acreditou. Não tem mais aquele prazer que é sofrer por falta de respostas. O prazer tortuoso, arder por não querer as coisas ou foguear por ardentemente querer. Há somente o esforço viciado do óbvio. Vivendo agora em reza. Nem simples nem complicado, irônico.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Exageradamente simples


Sobre meu colo uma parte do corpo me deixando inteira borbulhante, em partículas tontas. Nesse momento já não são palavras e o peso leve, afundante. Eu tenho um medo enorme de te estragar mas não pare de se afundar sem aviso no meu pescoço, nunca.
Me preocupo com a nossa saúde, pois da minha parte rolam tempos que azedo, enquanto você só quer a paz, parece que carrega a segurança de um rei. Quando doce, acho isso tão lindo e certo quanto sei que essa “paz” é atordoadamente o que sempre desejei. Todas as coisas do mundo que sonhei concentradas em um único corpo, e com defeitos! O quão real é...(já disse, saber o que fazer com o punhado de felicidade na mão, alcançado, eu rio porque não faço a menor ideia. É tudo mentira que tenho resposta pra tudo, aliás também disso rio, não sei de onde tirou essa loucura).
Como faço com os ciclos que me afetam e eu no mundo saio fazendo estrago, louca, mulher, desvanecida? Mesmo que eu não saiba, até nessas horas estamos os dois muitos simples: “ele é um homem e eu sou apenas uma mulher”, é tudo só isso.


(das coisas que me diz Cazuza)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

E agora, Maria?


 Não sou boa em saber o que fazer das coisas, ou pelo menos não ando sendo. E na atual circunstância, me dou o direito do exagero, principalmente com cansaços, pois já me basta o esgotamento, que seja ao menos o maior do mundo. Mas isso está longe de uma atitude ou de ser uma sábia maneira de lidar. Misturo brilhantemente racionalidade com o emocional, onde o sucesso se apresenta no: nada resolvido. Era tão melhor quando eu pensava toda inconformada "que merda que não fui a woodstock" e essas inconformações eram muito minhas, sem nenhuma consciência, sobretudo. O que aconteceu com minhas roupas que agora são: vai esfriar mais tarde, melhor ir de calça? o abominável jeans? todos os dias. Lembro que antes as coisas tinham o peso do desejo, puro e único e era isso o que eu fazia, carregava aquilo que suportava, mesmo que achasse que não, no fundo eu sabia que aguentava. Hoje elas tem outro peso, e a dificuldade de carregá-las me faz até esquecer o que e para onde carrego, quando vou ver já está tudo ali me dizendo "hum, e aí?" esperando uma definição minha ou uma direção, só que eu nada.
Não são ações de "sim" ou "não", mas saber o que fazer é uma certeza de escolha que não precisa de falas nem discursos, a não ser por veemência: sabe-se, faz-se. Então percebo minha falta de algo que é crucial, que do contrário é assim que a gente fica e assim tenho ficado: do desespero ao pânico ao cansaço. Sinto por não cumprir alguma coisa que nem sei. Que eu tinha a obrigação de estar completa e falta ainda uma parte considerável, além de alguns contornos sem direção definida. Fica difícil admitir isso tudo de mim mesma, o rumo que só posso perguntar "que rumo?" e responder imediatamente, "como você não sabe?!". Dura comigo, sou frágil e me afeta minha consciêcia. Não é questão de exigência, é que sou eu, é comigo o negócio. Fora os momentos de rigorosa reflexão, a gente respira, caminha, come, dorme, acorda e depois tudo outra vez, sem a menor ideia do que fazer das coisas, enquanto todo mundo tem certeza que você está viva.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sobre você

Não tem pontas, início nem fim. Essa é a concepção mais próxima que se pode dar como explicação, e é mesmo desforme, totalmente desforme. Não tem e não gosta de porquês (ficando eu encarregada das compreensões por dedução), pois se me beija é por alguma coisa nos meus lábios, braços ou pescoço que o atraiu, sem percepção descritiva, como se fosse um animal e seu instinto apenas sendo.
Sem minhas palavras, que eu possa enfeitar uma frase e assim dizer mais do que para alguém mas para mim, sobre o que é isso que eu chamo também de “você”, como se “você” tivesse hoje se transformado em uma única e exclusiva identidade, em todos os “vocês” concentrados em apenas você. E a imagem oscila entre os tempos, seus tempos, tudo num instante agora, dentro de um liquidificador despretensioso mas corajoso com experiências. Assume antecipadamente qualquer tempo e rugas, para nunca alcançarem seus segredos, que talvez nem ele mesmo saiba.
No meu caso, o equívoco ou palavra que se arrume desesperada para “vestir”, são fáceis para presas como eu, ao invés de simplesmente respirar. Procuro sentido na boca dele que me diz em outras palavras, como em línguas afiadas, culinária ou silêncios.