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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Como se é, não tem meio nem fim, é história

Lá se vão caminhando os atores
em garagens
elevadores
longe
lugar que nem se encontra
quando vai
é laboratório
lá se vai
e está
ao lado
todos respirando
todos de verdade
lá se vai a minha atriz
fica o personagem
é uma separação tão triste que teve até enterro
"lá" de nunca mais
de sempre vai estar
e o que me resta se não ser de verdade
coração partido
sangrando
dentro dos olhos
lá dentro
esquece maria
é drama o que essa menina tem
nessa hora todos vão pra sala
todos com seu corpo
a que fazer rir
a que contar uma história de minas
há de ser
é
todos são

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Tudo sob controle


Por vezes transbordo, passo da conta de mim, ou simplesmente deixo que meus anseios vivam sem limites. A verdade é que sou péssima com organização. Organizadora das minhas coisas, de mim, do que eu quero e do que passo a deixar de querer, sou totalmente sem jeito. E quando tento, é de modo tão precário, dó de mim. 
Procuro ter força, me esforço na humilde malandragem, tento me adivinhar e o mundo, falho de novo. É que tenho muitas partes ingenuas em mim, sobretudo quanto a o que fazer da vida, só me resta viver com as minhas armas, minhas "descobertas" tão ingenuas quanto as minhas não-descobertas.  
No fim das contas resta essa preguicinha (que não é bem preguiça), essa tranquilidade de ver as coisas da rede, porque no fundo, tudo em mim parte desse ponto de vista. Eu só simplesmente não sei até que ponto é boa a ansiedade que tenho antes mesmo de me preocupar com a minha saúde, com o que ela me causa ou a despreocupação de ir levando tudo numa boa. Mas é pra rede que sempre volto depois de ficar tentando ser gente grande. Nem de todas as arestas a gente consegue tomar conta, mesmo que sejam as próprias arestas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Paipilas auditivas


Meu silêncio que percorre ruas
Que esbarra em alguma coisa sempre
Se desmantela em burburinhos
Se desestabiliza e se arrepende
Meu silêncio tem um amor fiel ao som
Anda por aí, ouve música
Ele é tão silêncio
Tão meu
que eu juro
Inteiramente
Que são meus olhos
Que nele vomito ou guardo
Se resguarda e segue clichê
Meu silêncio é o que eu escuto
É, talvez, o que de mais expressivo eu tenha
Meu silêncio são meus cinco sentidos.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Filha única (aos meus amores)

Faço jus.
Minha condição de única me faz enxergar o amor inteiro único. Me faz amar concentrado, exagerado, no estilo "eu posso até morrer de fome". Eu que não sei entender como se diz "eu te amo" de maneira múltipla e metamórfica, já bem disse alguns amares, jurei e dei até sorriso. Ainda assim é inútil, fico sem entender o múltiplo de amor, que na minha matemática vai do zero ao dois. Eu que já amei mais de uma vez, que tenho mais de um amor, não entendo como isso pode acontecer.
Meu amor é a existência ímpar, una. Se te amo é porque não há outro no mundo. E no bate e volta, natural é que me reconheça, que jamais responda a "qualquer um na rua beija-flor". É grave doutor? - É, agudo. Problema de não compreender nunca meus amores terem tido outros amores. Não entendo tempo, passado, nem momento, entendo de amor eterno – eu, que já botei ponto final em história. Reinvento tempo e sentido pra explicar a singularidade de amor, de amar várias vezes e apenas uma na vida. É que amo um de cada vez, mesmo que ao mesmo tempo. Amo como uma perfeita filha única, porque não conheço outra forma de ser. Apesar do mundo me considerar "mais uma", nunca me ame como mais uma, preciso ser amada como uma, pois sou ignorante de amor com S.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Rascunho importante

Estou decidindo...estou decidindo...estou deci...
Sinto pelas horas que preciso, pre-ci-so, acertar as coisas na cabeça. Arrumar pra acreditar. Eu sinto muito por sua boca dizer coisas tão bonitas, suas mãos, com simplicidade, me ter, enquanto eu com dificuldades de assimilar. Sinto muito pelos sorrisos, pelas pidas, descontraídos. Por minha cabeça pirar com isso tudo e nem deixar pra depois, as vezes ali mesmo pensar numa coisa ruim, pra nos redimir dessa tal simplicidade de gostar um do outro. A propósito, sinto muito por gostar e imediatamente não saber o que fazer. Numa vida como essa, num a dois como nós e a perfeição que seria o presente mais merecido, me escapa. Eu sinto muito pelo descuido. E como sinto, pelas reticências em que me equilibro a dois anos e você bem no meio, antes, depois... Eu sinto muito por estar na roda viva, e portanto ser cruel, ingênua, perdida. Por me fugir, por fugir de você, por não deixar que seja esses meus trapinhos que eu adoro, enquanto você inesperadamente me olha, o cheiro no pescoço, as horas que não existem, podendo até confundir com pecado.

Eu sinto muito.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Do verbo ser

que me dá tanto dessa tranquilidade
se enerva em desóbvio
amolece em estalos
nunca vou te contar
por onde vou nua nas ruas
em cada ponta do cabelo
quando percorro a avenida
quando atravesso os sinais
caminhando sem voz
somente o ar de “sou vento”
capaz do seu nome jamais gritar
pegar o “tão” e guardar
que é tarde
todo mundo já sabe
é uma mulher a andar

terça-feira, 17 de abril de 2012

Desenho de um monstro

Rio, 17 de abril de 2012.

Você,

Tamanho medo que dá de sentir que alcança em mim uma parte que nem eu sabia, sobretudo por não conhecer. Não é o fato de ter alguém, é o fato de ter você. Também não é uma questão de medo exatamente ou talvez seja de um medo bom, como cócegas numa parte sensível de mim, (as vezes torturante).

Mas eu insisto comigo mesma (tenho manina de achar) que a parte "sombria" da vida é mais real e custo a acreditar que coisas boas assim existem. Por isso, me conhecendo e receando sobre as coisas boas, gostaria de controlar a dose certa, manter minhas próprias rédeas, numa cautela que julgo boa para minha própria saúde, me assegurando das tendências naturais, do exagero, impulsividade e outras características de quando gosto de alguém. Mas sentir ainda não é o tipo de coisa que consigo controlar (nesse caso, por sorte?). Afim de concluir algo mais racional e menos emocional, me engano que, em tal circunstância, a segurança de uma lógica ainda fosse possível e fico sem nada ou (apenas) com tudo. Até que me deparo inevitavelmente com"x" da questão, que é o que verdadeiramente importa entre duas pessoas: o que se sente pelo outro, que em mim se afirma no desejo que sinto de você. Isso foge a mim, volta, como consciência indiscreta, foge e volta, num movimento transgressor. E não tem a ver com romantismo, ou talvez tenha um pouco, mas mais ainda com uma realidade escancarada onde muitas vezes se apresenta a mim, numa agradável surpresa de uma lembrança "banal" do dia a dia, por exemplo. Que entre olhares, encontros e "eu ter você", vice e versa, existe uma coisa que eu chamaria de “manusear com os olhos”, num ato que eu poderia afirmar ser tão sensual quanto singelo visto daqui.

Diante de tudo, como marca indiscutível, me afeta em muitas áreas do sentir, fazendo tempestade; seja em metáforas ou com as próprias mãos, mas tudo com uma certa beleza que não posso negar que você me inspira. Contudo, tenho em mim a necessidade de esgotar as coisas, incluindo sentimentos, até agora, que me deparei com outro tipo de inspiração: que ao mesmo tempo se esvai e não quer que acabe. A isso, tenho chamado de amor e de fato amado, experimentado, indiscutivelmente vivido. Portanto, não posso concluir essa carta, para me manter, na medida do possível em certa coerência. Posto que tenho como característica mais forte que eu o esgotamento das minhas questões, uma excessão se destaca, muito mais fora do meu controle. Não vou me empenhar em achar um final para essa carta, pois não tenho pretensão em exaurir o assunto senão desfrutar do que é e vier.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Off

(Eu deveria estar alguma coisa que não estou. Fica as vezes a sensação de que “escrevi” ou disse alguma coisa, ou de um modo, que a minha vontade é apagar tudo. E quando “rasuro”, a sensação é ainda mil vezes mais terrível. Meu deus o que estou fazendo??? Todo esse gosto no meio do “estou vivendo”, e de todas as coisas estão os meus erros, sobrepostos os meus acertos; um desenho tão feio que não posso me perdoar por tamanha falta de beleza com aquilo que é meu e sou eu. De qual forma for, sou empurrada pra frente a viver, com cara de quem bebeu algo amargo, mas isso não importa, vai-se.)


sexta-feira, 23 de março de 2012

Eus e eles

Dizia: eu sou intepestuosa, ansiosa, amorosa...e um eco se expandia imediatamente. Ela se calava. E então era um eco interno, mas ainda um eco.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Descobrindo o que é rir pra não chorar

Ainda tenho traços de ímpetos infantis. Me vêm quando estou desejando algo, ardentemente. Tenho medo por isso pois perco a noção racional e pressinto o quão perigoso é ter em mim somente o sentimento, mais nada. O emocional puro, sem palavras pra explicar ou apenas duas: eu quero. E desse modo me ocorreu chorar, por coisas só minhas e que por isso até me dói ouvir o barulho das teclas, entende? Deixar que pese sobre mim e que transborde em lágrimas o vazio, da espera de tantas coisas que desejo e não vem. E depois de chorar, a vida seria a mesma coisa sempre. As mesmas páginas amarelas. Me fazendo sempre pensar que não adianta nada me derramar em lágrimas, mas também que não se chora para resolver a vida. E com tantas perguntas e indagações, mas poucas respostas, talvez eu devesse mesmo me por a chorar, mas é nesse momento que me ponho a rir.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O copo, meu mundo, minha tempestade



Dentre os meus quereres, como forma de sobrevivência: quero poder desdizer tudo aquilo que disse e quero manter a calma de estar no meio da vida sem explicação. Mas de repente tenho 23 anos, a vida seguindo na velocidade do meu desespero, tendo que construir meus próprios castelos e ainda lidar com o fato de não saber nada cada vez que eu sei alguma coisa, porque é assim que funciona essa máquina do tempo, indo sempre pra frente, nunca pra trás. Preciso controlar minha euforia da busca de uma calma que eu desconheço, e que é justamente a calma de desconhecer. A dureza da realidade não tem me permitido metáforas, quando azeda, é porque realmente está azedada. As tristezas tem sido tão reais, que são apenas tristezas, nada de poesia, nada de achar graça nas desgraças, apenas a seriedade que é a grande morte silenciosa das pessoas, como consequência de uma exigência traiçoeira. Eu tenho medo do que o mundo está fazendo comigo, do que vem fazendo com as pessoas e novamente do mundo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sendo

...e mesmo passando dias do ano que não acaba nunca mais, existe uma proteção prudente de minha parte quanto ao o desânimo fatigante que tenho sentido, ocorre que essa coisa é tão profunda, como um buraco sem fim de uma ferida aberta, que eu não posso com ela. O cansaço portanto, é a própria prudência de não me deixar ir além e ver o chão dessa ferida. Prefiro desconhecer tal horror, mesmo que o espelho tenha a minha cara. Entre tantas pessoas de narizes em pé - um cansaço infinito de ser muitas vezes "obrigada" a trocar palavras com elas, entre o ônibus que quando você quer e precisa, ele nunca passa e desfilam na sua frente os que você não quer e não precisa, entre o dinheiro, a conta bancária as dividas somadas aos sonhos e o resultado que diminui, reduz e até anula meus planos, um cansaço. Mas me canso pra me manter viva. É isso? não sei...não sei...

terça-feira, 5 de julho de 2011

Rabiscos ou Vida



Sujei de lágrima o papel, desenhei em mim um rio transparente, 
onde a pele do meu rosto era o fundo desse rio e escorregava 
pensamentos barranco abaixo. 
                                                              Eles são tão vivos que posso sentir o gosto salgado. Uso as mãos para enxugar o rosto . É assim que tenho me sentido, resgatando pensamentos que escorrem, o que tem me cansado bastante. As noites têm sido difíceis, e nos meus impulsos me vem por vezes o cheiro da fumaça do cigarro, o gosto da nicotina que eu posso sentir nítido na boca vazia, me faz preparar um café forte e fumar o café a tarde toda.  

                          Durante todo o tempo, as nuvens passam pela minha janela e eu abandonada no meu quarto, o olhar perdido na imagem que parece ser pintada para essas horas de angústias ou desejos de cigarro que respiram o ar limpo. 

                          *(as vezes me embaralho com tantos lembretes espalhados por mim, consciente ou inconscientemente: tatuagens, grifos de mim; cordões que trazem a antiguidade pra perto, confundindo as pessoas de que tenho fé em santos; os olhos, sempre cheios de escritos e papéis, muitos papéis soltos, rasgados, grandes, amassados, dobrados em quatro). 

Noutro dia, desamassava uma folha de papel e espreguiçava umas duas ou três vezes, como faço sem perceber, antes de começar algo, é um modo de esticar o corpo pois tenho ido para a vida carregando o peso de muitos rabiscos no papel - pode não parecer, mas um papel rabiscado pesa como ossos no corpo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Abra o envelope

Aquelas cartas que você queria ler mas não podia, é a sua chance.

Abra o envelope:
http://cartasparanorma.blogspot.com/

(Ps: este é outro blog meu, agora você poderá me encontrar aqui e lá.)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Eu sou assim no domingo


Ainda agora me lembrava de você e fiquei aqui querendo a presença só porque com ela eu consigo corpo encostando no outro corpo. Quis, dentro de alguns minutos, estes em que eu relembrava as nossas noites passadas, quis puxar pelo lençol todos os momentos de sopro no ouvido, respiração perto, ofegante, todo o cabelo amarrotado, sem roupa e só deixar restar, a amostra, os dois corpos flagrantes da guerra de forças nas noites de verão, em que por mim posso dizer que adorei transpirar e escorregar macio em pele sua que eu sempre digo "meu" num português que pouco me importa nessas horas e no seu linguajar pontual, literalmente pontual, pois sem ele não teria nome os meus montes.
Agora que puxei o lençol, ficou só o colchão sem nós dois. Ah, o ontem, ah todos os antes de ontem que eu invejo nesse domingo sem você. É porque sou assim de quereres e mais não querer-te e querer de novo e agora, e sou assim com o amor e sou assim com você, meu amor.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Quando te beijo



Desde a primeira vez fechei os olhos. Ninguém alerta o outro, “feche os olhos”, mas todos fecham.
Fecho os olhos quando procuro a inconsciência de meus pensamentos, o descanso necessário do corpo. Fecho os olhos quando a tristeza incomoda como uma farpa difícil de arranjar jeito para me livrar. Esfrego-os como se quisesse arrancar através deles, todas as farpas incrustadas que estão a me incomodar.
Escrever geralmente tem me dado a sensação dos olhos repousos: o escuro caminho por onde passam os pensamentos, é no breu que se tateia. Eu tateio palavras.
Mas os olhos, fielmente fechados – sem nenhuma poética, fechados, nos dão a possibilidade de descobrir o vulto que passou deixando um rastro de perfume, desvendar as cores sem saber que são cores. Dentro de olhos fechados, encontram-se todos os tempos: passado, presente e futuro e em lugar nenhum mais. É quando viajamos pelo desconhecido, quando pretende-se “ver” com os olhos das mãos, do nariz, da boca – Sou toda olhos. Na verdade, penso que Deus nos deu esses dois globos porque somos curiosos. Ficamos mal acostumados. A sorte é que o corpo é exigente e toda vez que deseja “ver”

ele fecha os olhos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Estava na sua frente

 Na diagonal. Via-se um desequilíbrio da figura, o topo inclinado, indagando. Uma imagem de anos, séculos quase. A impressão é que estava parada ali uma eternidade, pegando chuva, sol, vento e o que mais se tem no mundo. Fundos. Nos fundos dela, como duas maçanetas marrom de gavetas. Aqueles olhos que se puxasse, ah se alguém puxasse e abrisse as duas gavetas... Mais ali, bem perto, uma cama macia, não dessas que exacerbam conforto mas uma cama simples que quando se deita se dorme e é isso o que se espera. Desenho límpido no entanto com mil e uma possibilidades, na verdade esse não era seu diferencial e sim o ar de “por enquanto” que agoniava só de ver. Roupas tom pastel, um marrom, um verde musgo, mas bonito, como um encaixe. Era uma frase, em todos a roupa é sempre uma frase, no máximo duas. No fim da vida de cada um, talvez alguns juntem as frases e descubram o texto, daí fica só a lembrança – é assim. Ah, mas não poderia deixar de notar os fios, tantos eles, enrolados, tornam o sujeito sempre animal. Os cachos são a carteira de identidade onde no nome lê-se: Bagunçado Afoito do Nunca Arrumadinho ou semelhantes a isso, são todos da mesma família.  
As horas, em poucos segundos, passam quando se está de frente para o espelho, principalmente quando se vê. Ela se via no espelho. 



domingo, 28 de novembro de 2010

Quando transborda



Eu vou desfranzindo a testa aos poucos, onde ficam rugas, essas linhas marcadas pela tensão. Agora já passou, você me diz calmo, sereno. Meu corpo vai deixando de ser atento, vai tomando novamente minha forma, vai voltando a ser e somente ser, o que não exige nenhuma prévia, ser não dispõe de planos pois ou se é ou não é. Sinto cada parte voltando para o lugar, cada palavra desgrudando de mim, como escamas de pele velha. É um alívio difícil esse pousar em si. Eu estou crua. As vezes dá um certo medo me ver despida, imaginando o que vão pensar de mim em tom cor-de-pele.
- Deixa eu me misturar em você, e eu deixo. A pele dele vermelho-sem-vergonha diz que gosta de mim, as mãos encontrando meu arrepio me dizem “eu só vou mais até ali” e a cada palavra, cada gesto dele, uma vontade quase inconsciente, na verdade urgente de dizer: "eu te amo", e não tem nada a ver com saber amar e sequer parece com qualquer “eu te amo” já dito no mundo. Sai da boca fazendo cócegas essas duas palavras pequenas, desconhecidas, como a lembrança de um rosto e o esquecimento do nome. Quanto mais distraída da minha nudez, mais nua eu fico e quanto mais nua, mais sensível ao toque e “eu te amo” é o riso da cócega mais incontrolável.
- O que você disse?
- Desculpe, é que eu senti em voz alta.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Devolva-me



Você deu toda a sua alma para ele, mesmo sem saber exatamente o que era isso, ofereceu cada partícula sua que continha o seu próprio cheiro. Você deu o seu cheiro a ele. Cada instante da sua vida era dele, cada palavra que se vestisse de metáfora era por causa dele e já vinha com o nome da inspiração nas entrelinhas: ele. Hoje você colocou uma placa na porta de casa, “procura-se” e a vizinha veio dizer: minha filha, você esqueceu de escrever o que você procura, com o coração aflito você explicou a ela que era o que estava escrito lá, estava à procura de si mesma. Se procurando desesperadamente, entre a angústia de se ter de volta e a necessidade da devolução.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Identidade clandestina

Leblon - RJ
Escuta a tua respiração,
escuta essa certeza de vida. 
Escute a certeza do teu corpo úmido
longínquo,
tão seu que é perto demais para se ver.
Sente que a saliva escorre,
que o teu cabelo repousa frouxo no teto de seus pensamentos.
Não abra os olhos por alguns instantes.
Existem coisas que são vistas a olhos nus
e outras que são vistas de olhos fechados:
Portas abertas servem para entrar,
igrejas fechadas adormecem em cristo.
Ouve a tua respiração pesada.
Porque afunda em si?
Esse elevador que é o teu tórax inflando e esvaziando,
essa tua dor de desembarcar no ultimo andar.
És um corpo com mãos,
um corpo com formas.
Deite-se como os teus braços,
repouse soluto como as tuas pernas,
esse corpo que te torna possível,
lágrima que te torna real.
Quem mora dentro de ti? 
Me diga e eu te darei um rosto.