Lá se vão caminhando os atores
em garagens
elevadores
longe
lugar que nem se encontra
quando vai
é laboratório
lá se vai
e está
ao lado
todos respirando
todos de verdade
lá se vai a minha atriz
fica o personagem
é uma separação tão triste que teve até enterro
"lá" de nunca mais
de sempre vai estar
e o que me resta se não ser de verdade
coração partido
sangrando
dentro dos olhos
lá dentro
esquece maria
é drama o que essa menina tem
nessa hora todos vão pra sala
todos com seu corpo
a que fazer rir
a que contar uma história de minas
há de ser
é
todos são
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segunda-feira, 1 de abril de 2013
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Está escrito
Algumas pessoas acham Felícia quieta demais, pouco fala, mas se indagada demonstra estar inteiramente prestando atenção no assunto. Outras pessoas dizem que Felícia as vezes deveria guardar certos pensamentos para si ou talvez reduzir, enxugar mesmo o que for dizer. Como aqui ela nasceu, no mundo, a tal “cartilha” social é levada em consideração toda vez que se pega pensando duas vezes em tomar atitude em relação a alguém, geralmente em situação e com pessoa que realmente lhe importa. Só que isso tudo fica confuso pra ela saber qual a devida maneira, a mais prudente, a mais elegante, a menos lancinante de agir, o que significa saber o que falar ao outro. É um engole sapo, um engasga daqui outro dali e quando vai ver está vomitando da pior forma ou se calando quando deveria despejar e se esvaziar. Felícia, que é escritora e adora ler, passa muito tempo com as palavras e já chegou a achar que elas são muito melhores do que pessoas, talvez totalmente melhores, se não fosse para as pessoas que as palavras foram feitas, além de terem sido criadas pelas próprias. Ela pensa até numa revolução da comunicação, numa renúncia as palavras, mas se deu conta que a única forma que lhe basta para dizer tudo sobre esse disse me disse sobre, sobre como ela é e o que é certo expressar ou não, é com as palavras e pensou com ela mesma: ao menos posso escrever e poupar do esforço da boca e dos ouvidos.
domingo, 5 de junho de 2011
Pilhada
.Quando se viu, estava confusa no closet, e depois lembrou-se de que não tinha um, logo se sentiu no direito de aumentar o sofrimento, pois em frente ao armário de muitas roupas estava ela atordoada, sem chances de escolher alguma coisa que lhe caísse feito luva, quem dirá todo o resto que precisava arrumar, um amontoado de coisas e coisas ainda sem nome, somente “coisas”, o que já era demais.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
Eu mesma não tenho nada a dizer, mas suplico...
"...alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesma, amém."
Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, Clarice Lispector.
"...alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte e sim a vida, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que eu receba o mundo sem medo, pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados e nós mesmos também incompreensíveis, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade e paciência comigo mesma, amém."
Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, Clarice Lispector.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Na cama
(Me salta aos olhos, suicida, me come com os mesmos, fico mordida. Grita, eu peço fala baixo mas se propaga como perfume, não adianta lavar o rosto, não é água que escorre é fogo que queima a roupa, um assalto e você com as mãos pra cima, um crime.) Antes de dormir pensava no roubo.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Morrer na praia
Eis aqui um corpo. Esse corpo que um dia foi mais obscuro e de tão, era rasgo no pano branco – denunciava o que ficava por baixo. Pele? Muito mais, era só o primeiro quilômetro dela. Este corpo que com o seu “a mais”, comia os textos evidenciando a sua agonia de corpo flagelado.
Ah, o corpo que foi um dia... tocado tantas e tantas vezes como por uma criança que cutuca umas cem vezes o mesmo peixe saltitante na praia e toma sustos com os saltos do animal. Um dia se acostuma e não tem mais novidade as cutucadas, nem a criança acha diferente os mesmos pulos, o animal cansado anunciando o fim, ainda nas mesmas manobras. Mas a criança ama o peixe e essa é a primeira incoerência que um iniciante pode ter na vida.
Virara uma coisa só os muitos rasgos. Já pasmo, um corpo sem objetivo que um corpo deve ter. Como designar a si mesmo? pois como se constituir um corpo que rígido é uma coisa só? Implorando pelo peixe, implorando que a criança arrumasse outra forma de instigar seus pulos que poderiam ser manobras nunca feitas. O corpo que não é descoberto mais. Eis aqui um corpo na areia da praia. Sem sombra do que poderia ser, sem alguém que não desvie o olhar do que ele é e do seu tempo futuro, que talvez nem chegue.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Amoras
Do outro lado da rua os galhos tristes. Calor e terra se instalavam por ali. Instalavam-se também famílias, em meio a elas, eu. Naquela casa de campo o tom sépia me era sugestivo e eu não estava com vontade de comer. Rita chamava todos para o almoço, ela mesma com água na boca. Na verdade não era água e sim aquela saliva rala que eu podia imaginar só pelas sílabas Sa-la-da e logo em seguida, fres-qui-nha - que eram ditas quase como um sopro ou um regador sobre as folhas do alface. Enquanto ela chamava, Miguel insistia para que fossemos até a árvore de amoras sem nenhuma graça, só que eu não queria procurar amoras naquela árvore tão feia. Sim, a árvore na verdade não me atraia e a isso eu atribuía sua feiura, fora a falta de vontade pela comida que me esvaziava satisfeita. Já sentenciada, a coitada da árvore carregava folhas de um verde fosco e deixei Rita gritando em vão só porque outra voz havia falado mais alto, Miguel me chamava a atenção:
- Procura elas pra mim, estou de “bengalas”, se referindo às muletas.
Em passos de "tanto faz", aceitei catar as tais amoras na árvore que se não fosse pelo tal pedido sequer a teria notado. Eu olhava, olhava e sem ânimo arranquei a frutinha, sem dó nem muito menos atenção ao que fazia. E num “dou não dou” à boca dele, a amora estoura na minha mão. Um vermelho sangue inevitável aos olhos se espalhava entre os meus dedos que brincavam de sentir a textura do suco da amora.
Eu que pegara a fruta. Havia sido eu a caçadora. Naquele dia de sol, sem graça e “sépio”, fui mulher de um homem. Sangue nas mãos. Dispondo do fruto, descobrindo o sugo da fruta e a força das mãos e a vontade de comer que não era minha, o gosto que não era o da minha língua. Amora. Oferecendo, com curiosidade nascida naquele momento, um presente vermelho sangue. Mulher de um homem. Mesmo que a árvore, a rua, a casa e as amoras fizessem parecer o contrário. Amora. É quando se descobre amorosa num dia inotável, invivível. Amara-o em vermelho sangue, como deve ser.
- Procura elas pra mim, estou de “bengalas”, se referindo às muletas.
Em passos de "tanto faz", aceitei catar as tais amoras na árvore que se não fosse pelo tal pedido sequer a teria notado. Eu olhava, olhava e sem ânimo arranquei a frutinha, sem dó nem muito menos atenção ao que fazia. E num “dou não dou” à boca dele, a amora estoura na minha mão. Um vermelho sangue inevitável aos olhos se espalhava entre os meus dedos que brincavam de sentir a textura do suco da amora.
Eu que pegara a fruta. Havia sido eu a caçadora. Naquele dia de sol, sem graça e “sépio”, fui mulher de um homem. Sangue nas mãos. Dispondo do fruto, descobrindo o sugo da fruta e a força das mãos e a vontade de comer que não era minha, o gosto que não era o da minha língua. Amora. Oferecendo, com curiosidade nascida naquele momento, um presente vermelho sangue. Mulher de um homem. Mesmo que a árvore, a rua, a casa e as amoras fizessem parecer o contrário. Amora. É quando se descobre amorosa num dia inotável, invivível. Amara-o em vermelho sangue, como deve ser.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Zero à esquerda
Havia oferecido um pouco de si ao próximo. Ingênua, não saberia que o pouco, dado a alguém, é muito de si. Qualquer pouco que se dê é bastante, é tanto, é tudo. E sobre isso, poderia passar linhas e linhas falando num tempo que não acabaria nunca: a porcentagem que se oferece e que dá erro no cálculo final. Lembrava dos cabelos negros, do perfume forte que causava irritação nas narinas. Tudo isso misturado dava-lhe náuseas descompassadas entre “foi bom” e “foi ruim”. Cultivava certa raiva daquele tempo e, inevitavelmente, ocorria-lhe a sensação de ter perdido um pouco de sua vida – apesar de saber da ignorância que seria maquiar as cicatrizes do seu corpo. Os risos, a descoberta limitada pelo destino – ela que nem sabe escrever uma carta, falando em destino. Alguém escreveu que “não”, feito uma mão que fez força contrária a direção que ela insistia, cansou a Maria. Depois que veio a distância, e só depois que veio a distância, a mão sumiu. E lá se foi o número de vezes tentando, e lá se foi o “um milhão”, ficara só o zero. Um zero à esquerda, pra começar tudo outra vez.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Vitória
Primeiro eu aceitei o trato, depois tentei me familiarizar com a condição. Sim, porque só aceitamos algo quando enxergamos um resquício semelhante a nós ou aquilo com o qual convivemos.
Meu nome nada tinha a ver com a prática, na minha vida passava longe os euforismos e braços erguidos gritando – Vitória! Conto nos dedos os episódio em que protagonizei cenas como essa. Sempre que escrevo meu nome tenho vontade de pôr no final um ponto de exclamação. Mas exclamar a que? O que? Quem é essa tal de Vitória que cultua derrotas “passeando” por opção entre suas tristezas? Essa Vitória sem ponto de exclamação, sou eu. Trinta e poucos anos para chegar aos quarenta e Vitória, ponto final. Onde já se viu me entupir de “estímulo feliz”? Me apresento a alguém e logo penso que eu tenho que vencer! Tenho que conseguir sair com esse cara e tenho que conseguir que ele me ligue, que se apaixone e que o sexo seja maravilhoso, tenho que conseguir o emprego, tenho que conseguir ganhar na mega-sena. Eu me obrigo a ter sentido entende? Mas quanto mais vou em busca de coerência mais me afasto de qualquer alcance...vitorioso. Penso nos meus pais todos os dias e ainda não consegui encontrar um motivo. Só sei que o meu nome é Vitória, apenas um vestido bonito que quiseram me dar. A verdade é que o nome pouco importa, pode ser eu ou você,
eu ou você.
domingo, 26 de setembro de 2010
Nesse meio tempo que se chama...
Ela se via à espera e como toda espera, era calada e branca. Vazia - Mas esse vazio da espera é tão cheio, mas tão cheio que é vazio entende? Pensou por um instante.
Passava os olhos por textos que ela escrevera em dias de tumulto. Aquelas frases e parágrafos poderiam ser escritos mil vezes que seriam iguais – talvez seja isso o que chamam de destino. Ela tinha de escrever aqueles textos, hoje considerados antigos, era como um modo de liberdade personificada. Sentia cada um deles com a voracidade de um “agora”. Cada palavra nua era ela vestida ou vice e versa.
Felícia sabia que, apesar de cada carta e cada texto terem dono, ele não saberia entender a grandeza que ela lhes oferecia pois essa grandeza, no papel, era vulnerável a pequenez dos homens que tem medo de ver. Seus escritos eram tão ela, que nem mesmo a própria conseguia enxergar com clareza. Sabia que todos os textos transbordavam numa nudez quase que sem-vergonha - quase.
Mas a espera. Felícia agora vivia a espera. E como toda ela, engajada em viver, não havia outra face se não a de quem espera, não havia uma posição para as mãos pois a espera nos faz esquecer que temos mãos, não havia um ponto fixo para o olhar, ele estava perdido naquele nada que é a visão da espera. Não havia ela naqueles dias, só havia a espera, esta que sem pudor consegue ser ao mesmo tempo o seu avesso, o inesperado. Não existia tempo para contar, somente o cansaço e o grande vazio branco. Nem uma palavra, nem um perdão,
a espera.
Passava os olhos por textos que ela escrevera em dias de tumulto. Aquelas frases e parágrafos poderiam ser escritos mil vezes que seriam iguais – talvez seja isso o que chamam de destino. Ela tinha de escrever aqueles textos, hoje considerados antigos, era como um modo de liberdade personificada. Sentia cada um deles com a voracidade de um “agora”. Cada palavra nua era ela vestida ou vice e versa.
Felícia sabia que, apesar de cada carta e cada texto terem dono, ele não saberia entender a grandeza que ela lhes oferecia pois essa grandeza, no papel, era vulnerável a pequenez dos homens que tem medo de ver. Seus escritos eram tão ela, que nem mesmo a própria conseguia enxergar com clareza. Sabia que todos os textos transbordavam numa nudez quase que sem-vergonha - quase.
Mas a espera. Felícia agora vivia a espera. E como toda ela, engajada em viver, não havia outra face se não a de quem espera, não havia uma posição para as mãos pois a espera nos faz esquecer que temos mãos, não havia um ponto fixo para o olhar, ele estava perdido naquele nada que é a visão da espera. Não havia ela naqueles dias, só havia a espera, esta que sem pudor consegue ser ao mesmo tempo o seu avesso, o inesperado. Não existia tempo para contar, somente o cansaço e o grande vazio branco. Nem uma palavra, nem um perdão,
a espera.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Recado
Me ame com os olhos nus. Me dispa com as mãos sujas e nos limparemos entre o suor e a vontade. Me olhe com o amor, me fale com a coragem e me procure com a saudade. Me roube com a certeza e não me devolva por ter incerteza. Me queira com a loucura e me tenha com todo o perigo. Hoje chegarei mais tarde, tem comida na geladeira é só colocar para esquentar,
Beijos, até de noite.
domingo, 11 de julho de 2010
O único problema é que nascera humana.
Sentou cansada no sofá. Na verdade estava exausta. Aqueles dias não estavam sendo fáceis e completavam-se dois meses de insônia. A graça lhe escapava pelas mãos ao ponto de ficar completamente sem graça quando alguém lhe chamava pelo nome, “Graça!”. Depois da nostalgia, sabia que poderia vir a ironia, aquela graça malandra que todo mundo tem guardado. Não pensou no futuro. Só o presente mal cheiroso é que importava. Quem aguenta sentir mal cheiro mais que alguns minutos?!
Decidiu-se pela loucura e foi por telefone que ela falou. Resolveu aquela situação que não podia mais sustentar, ou cheirar se assim posso dizer. O estranho é que junto com uma leve satisfação selvagem, ao desligar o telefone seus pensamentos continuaram a viver, como se nada tivesse acontecido! Além de louca seria cruel?
Não se levantou, nem buscou ar na janela. Não quis contar a um amigo nem se debulhou em lágrimas. Apenas viveu. Pensou que todos deveriam ser daquele jeito. Depois pensou em chorar, mas a vontade não vinha. Sentiu-se muito mal por não ter aguentado mais um pouco. Por ser tão humana que o maldito cheiro ela não pudera suportar. É a vida. Por falar em vida, o cheiro horrível vinha de um animal morto, contei? E foi só depois que ela descobrira o óbito, que decidiu não sentir mais o tal cheiro.
Agora podia viver.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Um corpo nu
Soube que mulheres gostam de usar bolsas. Houve uma época que elas eram enormes feitas sob medida, a medida do desespero. Marina é da parte que sobrou – as que não gostam de bolsas. Nem pra lá nem pra cá, o bom mesmo é guardar as necessidades no bolso.
Além do sangue e das curvas que marcam, mulheres costumam usar penduricalhos que servem como enfeite ou como acréscimo de si mesmas. Marina gosta de pouco e com o pouco sentia-se bem, bem leve. Olhando nas ruas, muitas vezes chegou perto de se arrepender ao ver que tantas outras, muito parecidas com ela, exibindo suas “bolsa-acréscimo”, pareciam ter encontrado a combinação perfeita. Mas se tão logo observasse mais além, o que fazia de costume, via mulheres que mesmo sem nada pendurar, deixava estampado no rosto que faltava-lhes algo. Figuras que denunciavam seus vícios e sua pouca independência nesse mundo contemporâneo. A verdade é que o mundo continua sendo mundo e mulher continua sendo mulher. Esses corpos viciados, andavam tristes pelas ruas e por vezes esbarravam no de Marina, representante de uma pequena porcentagem feminina. Leve como quem voa e como quem não tem e não quer ter nada acrescentado em si. Ela gostava do rascunho e não via graça no desenho pronto, pintado. Achava que um quadro pronto determina o fim da linha. Se alguém imparcial – alguém que não é gente e não existe, pois a imparcialidade é o gosto da ilusão, visse com seus olhos de imaginação essas mulheres que caminham pela cidade com abstinência de bolsa, e outras, apenas algumas, que caminham leves apreciando seus próprios ombros nus, o peso cru de seus corpos, este poderia se confundir.
Marina continuava mulher e ainda gostava de caminhar leve, mas passou a ficar intrigada com a denúncia dos corpos. Sentia que olhando as mulheres, tão femininas quanto ela, podia quase que adivinhar seus nomes secretos. Os traços, pintados ou crus, diziam mais do que gostariam. Tudo escapa do corpo e disfarça-se quase tudo com palavras. Dias se passaram e numa noite dessas, calada, ereta na cama, Marina orgulhou-se de não precisar de bolsas e de ser feliz caminhando com pouco. Naquele instante, lembrou de Orlando, não o tinha mais, somente as lembranças que levava consigo por onde quer que fosse.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Dias como Lóri...
"(...) Agora lúcida e calma, Lóri lembrou-se de que lera que os movimentos histéricos
de um animal preso tinham como intenção libertar, por meio de um desses movimentos, a
coisa ignorada que o estava prendendo — a ignorância do movimento único, exato e
libertador era o que tornava um animal histérico: ele apelava para o descontrole —
durante o sábio descontrole de Lóri ela tivera para si mesma agora as vantagens
libertadoras vindas de sua vida mais primitiva e animal: apelara histericamente para
tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara
desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como, estava
cansada do esforço de animal libertado.
E agora chegara o momento de decidir se continuaria ou não vendo Ulisses. (...)"
de um animal preso tinham como intenção libertar, por meio de um desses movimentos, a
coisa ignorada que o estava prendendo — a ignorância do movimento único, exato e
libertador era o que tornava um animal histérico: ele apelava para o descontrole —
durante o sábio descontrole de Lóri ela tivera para si mesma agora as vantagens
libertadoras vindas de sua vida mais primitiva e animal: apelara histericamente para
tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara
desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como, estava
cansada do esforço de animal libertado.
E agora chegara o momento de decidir se continuaria ou não vendo Ulisses. (...)"
Clarice Lispector em, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Olhos de horizonte
Eu estou na beira do mar
esperando o barco passar.
Ele passa soltando fumaça,
acenando.
Marinheiros em balsas
só para a foto tirar,
apertar o coração pequeno
de um lado e de outro,
essa esperança sufocada.
Eu estou do lado de cá
esperando o barco passar,
só pra ver se ele vem.
Sinal de fumaça
ou carta cheia de graça,
agora ele nada.
esperando o barco passar.
Ele passa soltando fumaça,
acenando.
Marinheiros em balsas
só para a foto tirar,
apertar o coração pequeno
de um lado e de outro,
essa esperança sufocada.
Eu estou do lado de cá
esperando o barco passar,
só pra ver se ele vem.
Sinal de fumaça
ou carta cheia de graça,
agora ele nada.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
MERDA!
Primeira vez participando do festival e o friozinho na barriga não me deixa.
Amanhã estarei no elendo do espetáculo Os Melhores Anos de Nossas Vidas, abrindo o Festival de Teatro do Rio de Janeiro, com platéia cheia entre parentes, amigos e um júri de olho no conjunto da obra.
Desejo a todos nós, MERDA!
Para quem quiser dar uma olhada na programação:
http://www.teatrogtt.com/programacao.html
Amanhã estarei no elendo do espetáculo Os Melhores Anos de Nossas Vidas, abrindo o Festival de Teatro do Rio de Janeiro, com platéia cheia entre parentes, amigos e um júri de olho no conjunto da obra.
Desejo a todos nós, MERDA!
Para quem quiser dar uma olhada na programação:
http://www.teatrogtt.com/programacao.html
quarta-feira, 24 de março de 2010
Lugar comum
Onde vai a tua sorte
divisora de pacotes,
todos esses que me trouxe
com o sonho doce de seu Jorge.
Os caminhos e histórias
tantas essas que te acolhem,
são lugares de saudade
pintam e fazem a cidade.
O teu nome é moradia,
o teu laço é simpatia.
No final vão nos dizer
que só pode vir para crer,
as casinhas de varanda,
os barracos enfeitados,
o pão e o seu Jorge
de gosto doce de leite,
guardado na pele franzida.
Trêmulos, os dedos do tricô
preparam o café da tarde
saboreando o mesmo sonho.
domingo, 7 de março de 2010
Nem tudo que é morte é o fim
Numa decisão quase tomada, caminhou em direção ao prédio que furava o céu e era tão imponente que se mostrava merecedor de um certo respeito. Seria o ideal. Entrou pela porta brilhosa - Seria de ouro? - Seguiu pelo hall e num passo de destino certo, como haveria de ser, entrou afoita no elevador. Ninguém reparara na menina. A pertou o botão que idicava o último andar do edifício: 45°. Por alguns minutos, enquanto se encaminhava ao topo, ela pensou em como faria para chegar no terraço do grandioso arranha-céus. Buscou as escadas como se já soubesse onde chegaria. Assim foi, Ana chegara no fim da linha.
Sua vida era boa. Família boa, amigos bons e namorado bobo. Sempre conviveu bem com a bondade e a tolice, até aquele dia. Era como se comesse uma comida, preparada e escolhida por ela mesma, mas que estivesse sem sal e por preguiça não levantava nunca da cadeira para buscar o punhado que faltava para dar gosto. Sempre pedia a mãe cansada, ao irmão inquieto e por vezes insistiu para o namorado ocupado, mas nunca levantou-se de seu lugar.
Lá em cima era frio, não era fresco, era frio. A brisa vinha cruel cortar seus braços desnudos. O chão era quente do sol que se instalava no decorrer do dia. Ela resolveu olhar e perscrutar o mundo lá embaixo para saber como ele era visto de tão alto. Era, pequeno. Como a maquete do pai morto, cheia de elementos que confundiam sua visão e ao mesmo tempo tão insignificante os detalhes. Quando vivo, o pai fazia maquetes e dizia sempre que o que valia era o todo, mas para isso os detalhes deveriam ser feitos com bastante atenção - Talvez, pensava consigo mesma. Lá de cima só via o todo e Ana pensou - Então era aquilo que os detalhes formavam? Tanta preocupação ela tinha com os detalhes para que formassem aquilo?
De repente num pulo, avistou um gato que passeava pelo beiral, sem expressão de receio ou de culpa, ou de qualquer coisa que lhe fizesse estar ali, o gato passeava pela borda. Quando quis, desceu, parou e olhou para Ana. Os dois se encararam feito primeiro encontro, ela pensou no que o trouxera ali, pensou no que ficara lá em baixo, no gosto sem graça da comida e nos detalhes tão misteriosos que formavam o todo. O gato, por sua vez, cheio de vontades, desviou o olhar e sumiu pelo enorme terraço, abarrotado de fios e relevos. Restava somente ela. A brisa foi virando vento forte e cortava seu corpo cada vez com mais violência, o som dos carros foi aumentando e a ponta do arranha-céus foi sumindo voraz.
- Ana...Ana! Sacudia e chamava a filha que estava num profundo sono. Ana acordou assustada e sua mãe perguntava - está com o rosto pálido, você está bem minha filha? E a filha respondeu com voz de alívio, - foi desses sonhos pra nos acordar para a vida, mamãe.
Sua vida era boa. Família boa, amigos bons e namorado bobo. Sempre conviveu bem com a bondade e a tolice, até aquele dia. Era como se comesse uma comida, preparada e escolhida por ela mesma, mas que estivesse sem sal e por preguiça não levantava nunca da cadeira para buscar o punhado que faltava para dar gosto. Sempre pedia a mãe cansada, ao irmão inquieto e por vezes insistiu para o namorado ocupado, mas nunca levantou-se de seu lugar.
Lá em cima era frio, não era fresco, era frio. A brisa vinha cruel cortar seus braços desnudos. O chão era quente do sol que se instalava no decorrer do dia. Ela resolveu olhar e perscrutar o mundo lá embaixo para saber como ele era visto de tão alto. Era, pequeno. Como a maquete do pai morto, cheia de elementos que confundiam sua visão e ao mesmo tempo tão insignificante os detalhes. Quando vivo, o pai fazia maquetes e dizia sempre que o que valia era o todo, mas para isso os detalhes deveriam ser feitos com bastante atenção - Talvez, pensava consigo mesma. Lá de cima só via o todo e Ana pensou - Então era aquilo que os detalhes formavam? Tanta preocupação ela tinha com os detalhes para que formassem aquilo?
De repente num pulo, avistou um gato que passeava pelo beiral, sem expressão de receio ou de culpa, ou de qualquer coisa que lhe fizesse estar ali, o gato passeava pela borda. Quando quis, desceu, parou e olhou para Ana. Os dois se encararam feito primeiro encontro, ela pensou no que o trouxera ali, pensou no que ficara lá em baixo, no gosto sem graça da comida e nos detalhes tão misteriosos que formavam o todo. O gato, por sua vez, cheio de vontades, desviou o olhar e sumiu pelo enorme terraço, abarrotado de fios e relevos. Restava somente ela. A brisa foi virando vento forte e cortava seu corpo cada vez com mais violência, o som dos carros foi aumentando e a ponta do arranha-céus foi sumindo voraz.
- Ana...Ana! Sacudia e chamava a filha que estava num profundo sono. Ana acordou assustada e sua mãe perguntava - está com o rosto pálido, você está bem minha filha? E a filha respondeu com voz de alívio, - foi desses sonhos pra nos acordar para a vida, mamãe.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Sucumbindo
Não me peça para dizer algo.
Debruçada sobre a tua pele
vou descobrindo o caminho mais tórrido,
mais feliz.
Quando me disser,
diga aos meus ouvidos
e molhe com a boca
as palavras e gestos.
se eu estremecer,
me aqueça
e me dê mais frio.
O que eu posso te dizer
resume-se em poucas sílabas
e só faz sentido quando estou em teus braços.
terça-feira, 2 de março de 2010
Menina enrolada
Uma menina que queria ser palhaço de circo. Queria também uma onça domar. Sob a tenda de um circo terminou por soltar fogo pela boca, e mesmo que de mentira arrancava aplausos da platéia. Mais tarde a menina cresceu mas esqueceu de lembrar. Demorou para que suas pernas contassem a ela que já estavam longas demais para ser palhaço ou domadora e mesmo que pudesse continuar soltando fogo de mentira, sua vontade ansiosa dizia que sair do circo seria melhor.
Ainda não informada que havia crescido, continuou guiada por suas vontades. Saiu do circo a menina, cresceu mais uns centímetros as pernas e pernas-de-pau ela foi querer ser, desfilando pelas praças e distribuindo felicidade.
Um dia, lá do alto dos filetes de madeira, ela chorou porque mais uma vez sabia o que queria, mas o choro vinha do não saber fazer com o que sabia querer. E a brisa mais fria do alto dos céus, veio para secar suas lágrimas de menina que virou gente grande, não por ter pernas longas, nem por ser pernas-de-pau mas por descobrir que querer não era o bastante.
Ainda não informada que havia crescido, continuou guiada por suas vontades. Saiu do circo a menina, cresceu mais uns centímetros as pernas e pernas-de-pau ela foi querer ser, desfilando pelas praças e distribuindo felicidade.
Um dia, lá do alto dos filetes de madeira, ela chorou porque mais uma vez sabia o que queria, mas o choro vinha do não saber fazer com o que sabia querer. E a brisa mais fria do alto dos céus, veio para secar suas lágrimas de menina que virou gente grande, não por ter pernas longas, nem por ser pernas-de-pau mas por descobrir que querer não era o bastante.
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