,ai de mim.
De repente estou calma, como quem cumpriu alguma coisa que fosse grave, dessas que se sente a vibração. Mas não sei de nada, tamanha a leveza quando se carrega o cumprimento da "coisa". O contraste de tudo, o vento , a rua, os passos. A ousadia de ser completa diante de tantas outras coisas que faltam. Ao mesmo tempo que se alcança um ápice, não qualquer, de um amadurecimento e testemunhar que nada passa do recém nascimento de uma escolha e portanto agir como quem começa do zero: desengonçada. A super-exigência que indica o absurdo da calma - se o amor é tão certo. O amor é tão certo. Quando não se bebe mais do gosto da arrogância e tudo é extremamente natural nas pontas desconhecidas de si mesmo e do outro. Como suportar o peso do "tudo" e do "nada"? Como? se a pelizinha da unha incomoda, o ponteiro faz "tic-tac", a conversa-ladainha é redundante. Redundante. Os dias da semana são cinco, meu rosto tem rugas de expressão de 24 anos e uma interrogação enorme, maior que uma metáfora, atingi o limite de todo o meu drama. Que começa na unha, que vai para o relógio, que... "tec-tec" do teclado. Eu não sei carregar o peso da calma, porque a realidade é tudo o que engole. Nunca estive tão serena e tão perdida.
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segunda-feira, 1 de outubro de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Tolice nossa, nos dai hoje
E se eu for hippie por um tempo, o suficiente pra eu voltar pra realidade continuar com a minha conta no banco, os finais de festa com roupa linda fedorenta a “fins”. Se eu ficasse deitada nesse sofá maravilhoso, caísse nas nuvens e doesse? o chão duro, frio! Se olhar pra frente fosse como faço agora, olhar, olhar sem fim nem foco – ah que maravilha... é tão gostoso estar de pijamas, não fazer nada algumas horas, ficar de roupa muito bem planejada com o dia e o lugar, algumas horas (bato o martelo em vão). E se talvez eu controlasse o tempo, transcorrendo, dividindo, escolhendo, até esquecer o forno ligado - a minha cara.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Avesso do óbvio
A medida de mim é transbordar.
Então, sem pé nem cabeça,
rodo a procura do próprio rabo
me perguntando afinal,
é bom pra quem conseguir ou não se alcançar?
Gerundiando por instinto,
desesperada por falta de lógica que conforte
Quem faz tratos comigo sou eu,
quem esquece tem a mesma cara lavada.
Mas nunca tão óbvio quanto o espelho,
é um não saber o que fazer consigo mesmo
e também desfazendo com as próprias mãos.
Então, sem pé nem cabeça,
rodo a procura do próprio rabo
me perguntando afinal,
é bom pra quem conseguir ou não se alcançar?
Gerundiando por instinto,
desesperada por falta de lógica que conforte
Quem faz tratos comigo sou eu,
quem esquece tem a mesma cara lavada.
Mas nunca tão óbvio quanto o espelho,
é um não saber o que fazer consigo mesmo
e também desfazendo com as próprias mãos.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Porto
:pode ser “momento”, que ao mesmo tempo pequeno – diminuído - é a coisa mais urgente – e sempre mais urgente – que se pode sentir. Ao mesmo tempo menor, ao mesmo tempo a maior e mais importante coisa do mundo. E dessa coisa, sem verdade absoluta, sendo tudo e ao mesmo tempo “coisa que passa”, aquilo que se tem certeza - mesmo essa sendo inexistente, já que estamos falando de pessoas e o que tem dentro delas. E eu digo que “estou certa disso!”.
não me deixa olhar pra frente,
não deixa que hoje acabe
mesmo eu já acostumada a morrer
A sorte é poder reinventar, é poder sentir que “está tudo bem agora”, são as únicas coisas que a gente tem na vida: morrer e viver.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Te recebo
Sob a meia lua,
meus sussurros de doida.
Algumas vontades narradas
em cada suspiro de uma hora solta,
cada passo que vira noite,
em cada pé que, vagaroso,
sussurra a madrugada.
Mais à frente,
chega a manhã.
Estou amanhecendo repetida,
no quase beijo da lua e do sol
brilha desejo em espera.
Céus,
Faze de mim,
a prometida,
uma boa mulher para um homem que chega,
pois estou tão louca
que fui a zero nos dias sozinha.
Faze de mim um abraço que diga,
uma boca que cala
e morrerei viva
na não-noite,
no não-dia,
Nos braços de nossas horas.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Estava na sua frente
Na diagonal. Via-se um desequilíbrio da figura, o topo inclinado, indagando. Uma imagem de anos, séculos quase. A impressão é que estava parada ali uma eternidade, pegando chuva, sol, vento e o que mais se tem no mundo. Fundos. Nos fundos dela, como duas maçanetas marrom de gavetas. Aqueles olhos que se puxasse, ah se alguém puxasse e abrisse as duas gavetas... Mais ali, bem perto, uma cama macia, não dessas que exacerbam conforto mas uma cama simples que quando se deita se dorme e é isso o que se espera. Desenho límpido no entanto com mil e uma possibilidades, na verdade esse não era seu diferencial e sim o ar de “por enquanto” que agoniava só de ver. Roupas tom pastel, um marrom, um verde musgo, mas bonito, como um encaixe. Era uma frase, em todos a roupa é sempre uma frase, no máximo duas. No fim da vida de cada um, talvez alguns juntem as frases e descubram o texto, daí fica só a lembrança – é assim. Ah, mas não poderia deixar de notar os fios, tantos eles, enrolados, tornam o sujeito sempre animal. Os cachos são a carteira de identidade onde no nome lê-se: Bagunçado Afoito do Nunca Arrumadinho ou semelhantes a isso, são todos da mesma família.
As horas, em poucos segundos, passam quando se está de frente para o espelho, principalmente quando se vê. Ela se via no espelho.
As horas, em poucos segundos, passam quando se está de frente para o espelho, principalmente quando se vê. Ela se via no espelho.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
A prece consciente
Amarrotadas coisas que percorreram os minutos daquelas horas. Que sejam belas as coisas que transladaram esse “agora” e movimentaram em mim a força de um tempo desconhecido, o que se vive, o que está sendo, o que virá a ser. O meu tamanho, que não impediu abrigar marcas, que o meu tamanho seja a casa e o lugar. Que possam morar nos meus olhos sem fazer transbordar, que possam se alimentar de minha boca: ouvidos e dentes; e línguas. O meu passado, que qualquer dele esteja acomodado em seu devido lugar , nas casas antigas, que sou eu na minha linha do tempo. Que eu saiba beber a dose certa de bom e ruim. Que o meu rumo seja guiado pela minha embriaguez, lúcida como a escolha de ver a olhos nus ou com os óculos que me destes. Que eu me reconheça quando esbarrar em mim. Mas o que quer que seja, que o amor contemple, e faça dos perigos do desespero de viver, a paz.
Prece inconsciente
Ao futuro
Toda a metáfora,
todo o grito mais bem gritado,
cuspido,
nem mais
nem menos,
tudo.
Meu rosto rasgado por mil lágrimas,
uma por dia
dia por duas vezes tentando,
eu fracassando.
Dor de garganta,
nó sem mãos
no pescoço apertando.
O melhor e o pior
Dos trezentos e sessenta e cinco dias
batido no liquidificador,
tome para beber
e brinde o ano novo,
Passado.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
O tempo, o meio e o que ainda falta
Nota prévia
O texto a seguir nada tem a ver com romantismos. A insensatez é o melhor sentimento para andar na corda bamba. Não se engane.
Gastou mais um pouco da borrada no caderno. Apagava “amo” escrito com tanto desamor. O pensamento fugia das linhas que insistiam em querer ser carta de amor. Lá estava ela, longe...
- nunca vi uma borracha acabar, parece que duram para sempre, mas sempre compro outra. Voltou para o papel, nada saía. Já batia uma agonia. Passava os minutos, dor de cabeça, língua amarga do café.
Tinha marcado um cinema com ele, era um dia especial, aniversário de namoro – quanta coisa inventam. Os próprios assinaram o contrato que ditava o dia, mas como sempre, não leram se quer uma cláusula. Optou por pegar emprestado um poema rasgado de Neruda que parecia muito com verdade, quando raros momentos distraída passava o coração do frio ao fogo. Transcreveu o poema naquele papel triste, esfolado de tanto apaga-escreve. Aliviada por ter conseguido cumprir a “tarefa”, imaginava que bom ter lembrado de “Não te quero senão porque te quero”. Caíra como uma luva a qual estapearia a cara do sujeito.
Mas ainda tinha de escolher a roupa, como quem vai ao enterro e não quer parecer nostálgica. Nada lhe vestia bem, nem mesmo um sorriso sugerido pela mãe, espectadora do dia de horror, torpor, como quiser pôr.
– mas não vou pôr mais nada! Não vou e ponto. Chorou pelo morto, chorou pelo traje inevitavelmente nostálgico, sua expressão, chorou porque iria ao cinema com ele? Secou as lágrimas que borravam nada além de tentativas de sorrisos tortos, pois maquiagem seria exagero.
Borracha novinha, cor verde fosforescente, linda. Só usou para apagar um borrãozinho feito sem querer.
- será que essa eu vou conseguir ver o “para sempre”?
O texto a seguir nada tem a ver com romantismos. A insensatez é o melhor sentimento para andar na corda bamba. Não se engane.
Gastou mais um pouco da borrada no caderno. Apagava “amo” escrito com tanto desamor. O pensamento fugia das linhas que insistiam em querer ser carta de amor. Lá estava ela, longe...
- nunca vi uma borracha acabar, parece que duram para sempre, mas sempre compro outra. Voltou para o papel, nada saía. Já batia uma agonia. Passava os minutos, dor de cabeça, língua amarga do café.
Tinha marcado um cinema com ele, era um dia especial, aniversário de namoro – quanta coisa inventam. Os próprios assinaram o contrato que ditava o dia, mas como sempre, não leram se quer uma cláusula. Optou por pegar emprestado um poema rasgado de Neruda que parecia muito com verdade, quando raros momentos distraída passava o coração do frio ao fogo. Transcreveu o poema naquele papel triste, esfolado de tanto apaga-escreve. Aliviada por ter conseguido cumprir a “tarefa”, imaginava que bom ter lembrado de “Não te quero senão porque te quero”. Caíra como uma luva a qual estapearia a cara do sujeito.
Mas ainda tinha de escolher a roupa, como quem vai ao enterro e não quer parecer nostálgica. Nada lhe vestia bem, nem mesmo um sorriso sugerido pela mãe, espectadora do dia de horror, torpor, como quiser pôr.
– mas não vou pôr mais nada! Não vou e ponto. Chorou pelo morto, chorou pelo traje inevitavelmente nostálgico, sua expressão, chorou porque iria ao cinema com ele? Secou as lágrimas que borravam nada além de tentativas de sorrisos tortos, pois maquiagem seria exagero.
Borracha novinha, cor verde fosforescente, linda. Só usou para apagar um borrãozinho feito sem querer.
- será que essa eu vou conseguir ver o “para sempre”?
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
seserenofor
Sereno feito um canto de pássaro lá longe,
no meu ouvido perto.
Fica perto de mim,
qualquer coisa calma que eu tenha em mim,
qualquer coisa de pequeno que caiba nas mãos,
qualquer carta de bolso que eu possa levar.
Olha as minhas pequenas garras
estão tão vazias,
mas se for sereno vai saber ficar sem
e com ou sem terá
e longe ou perto será,
canto de pássaro.
Sereno,
Fica perto de mim,
qualquer coisa calma que eu tenha em mim,
qualquer coisa de pequeno que caiba nas mãos,
qualquer carta de bolso que eu possa levar.
Olha as minhas pequenas garras
estão tão vazias,
mas se for sereno vai saber ficar sem
e com ou sem terá
e longe ou perto será,
canto de pássaro.
Sereno,
qualquer coisa que eu possa
su
por
tar
su
por
tar
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
O pensamento e o cone
Tropeçou nos cones que cercavam a areia delimitando o espaço. Estava tão distraída admirando aqueles garotos de pernas ligeiras que nem pôde ver a praia demarcada por faixas e cones laranja e branco
– Ei! Cuidado aí... Gritou um moleque de uns doze anos. Sem perceber, ela havia derrubado um dos cones. Os meninos faziam aqueles movimentos de zigue e zague com a bola que o olhar de qualquer um se deixa hipnotizar. Pôs o cone de volta no lugar e resolveu terminar a sua caminhada por ali. Ainda pôde escutar o menino resmungar, “mulher louca”, mas não deu bola.
Gostava de caminhar na praia porque lá parecia um lugar infinito, nunca aguentava chegar até o final e isso sempre deixava um gostinho de "quero mais" que ela guardava para o dia seguinte. Mas naquele dia a largura sem fim da areia foi finalizada por aqueles cones que saltaram de repente na sua frente.
Já em casa, enquanto tomava banho para tirar o sal e a areia, buscava um pensamento antigo que já não tinha novidade pra contar. Tomou banho com as lembranças e se secou com possíveis finais felizes. Foi até a cozinha esquentar o almoço. Não tinha vontade e comeu só com a fome. Arrumou o armário como pretexto de se perder em pensamentos - Coisas como arrumar armário facilitam a organização dos pensamentos. Separou umas blusas daqui, outras de lá, tudo na mais perfeita ordem. Suas arrumações com coisas eram cheias de coerência, facilitando encontrá-las quando precisasse. Assim como as roupas, a coerência só pertencia a ela, o que fazia dela a única que entendia seu armário. Lá no fundo avistou uma blusa que não usava mais e naquele momento lembrou novamente do assunto e se agarrou aos últimos fatos na esperança de poder reformular, repensar, mas tudo não saía do lugar.
Repassou as tarefas do dia e entre uma coisa e outra lá estava o mesmo fato, a mesma história. Havia uma coisa pronta e coisa pronta não dá trabalho nem papo. Se sentiu acuada pois nada tinha a pensar mais sobre aquele assunto. Descobriu que o pensamento também tinha fim e que ele era determinado pela lembrança. Andava distraída demais, louca demais para perceber.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Neruda
Talvez
Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...
Pablo Neruda
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Em boca fechada não entra mosca
Certas vezes me calei dizendo algo. Poucas foram as vezes que não falei com a intenção exata de não dizer. Será que fui compreendida? Estou pensando em reunir todas as minhas falas, ditas ou silenciadas e embrulhar numa caixa bem grande, com laço exagerado de fita numa cor bem chamativa e dar de presente, assim, no maior descaramento. Quem sabe a curiosidade e o carinho no ego façam com que minhas palavras sejam lidas. Mas muita coisa nem viveu, perdeu o sentido, ficou atrasada. As palavras também morrem e com elas um pouquinho de nós mesmos. O sonho de todo monólogo é virar um diálogo, uma conversa e nem sempre esse sonho se realiza.
Talvez eu deva não dizer mais. Calar-me para sempre. Passei alguns dias recolhida aos meus segredos, fiz questão de construir cada um deles, guardá-los bem seguro dentro de uma capa qualquer que servisse. Foi bom enquanto durou.
Acho que estou morrendo um pouquinho.
sábado, 7 de agosto de 2010
Minha ânsia por Vinicius ou Minha ânsia, por Vinicius
Ânsia
"(...)
A carne fugiu
Desapareceu devagar, sombria, indistinta
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis?
Não vos bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis no balbucio da oração?
Carne que possui a carne
Onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria nesse vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei...
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar.
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...
Dá-me apenas a aurora, Senhor
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia."
Vinicius de Moraes
"(...)
A carne fugiu
Desapareceu devagar, sombria, indistinta
Mas na boca ficou o beijo morto.
A carne desapareceu na treva
E eu senti que desaparecia na dor
Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
Na violência da posse.
Olhos que olharam a carne
Por que chorais?
Chorais talvez a carne que foi
Ou chorais a carne que jamais voltará?
Lábios que beijaram a carne
Por que tremeis?
Não vos bastou o afago de outros lábios
Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
Ou tremeis no balbucio da oração?
Carne que possui a carne
Onde o frio?
Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
Gritam luxúria nesse vento
Onde o frio?
Pela noite quente eu caminhei...
Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
Que eu ouvia, do mar.
Caminhei talvez para a carne
Que vira fugir de mim.
No desespero das árvores paradas busquei consolação
E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
E de pavor fugi.
Nada mais existe para mim
Só talvez tu, Senhor.
Mas eu sinto em mim o aniquilamento...
Dá-me apenas a aurora, Senhor
Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia."
Vinicius de Moraes
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Dias como Lóri...
"(...) Agora lúcida e calma, Lóri lembrou-se de que lera que os movimentos histéricos
de um animal preso tinham como intenção libertar, por meio de um desses movimentos, a
coisa ignorada que o estava prendendo — a ignorância do movimento único, exato e
libertador era o que tornava um animal histérico: ele apelava para o descontrole —
durante o sábio descontrole de Lóri ela tivera para si mesma agora as vantagens
libertadoras vindas de sua vida mais primitiva e animal: apelara histericamente para
tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara
desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como, estava
cansada do esforço de animal libertado.
E agora chegara o momento de decidir se continuaria ou não vendo Ulisses. (...)"
de um animal preso tinham como intenção libertar, por meio de um desses movimentos, a
coisa ignorada que o estava prendendo — a ignorância do movimento único, exato e
libertador era o que tornava um animal histérico: ele apelava para o descontrole —
durante o sábio descontrole de Lóri ela tivera para si mesma agora as vantagens
libertadoras vindas de sua vida mais primitiva e animal: apelara histericamente para
tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara
desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como, estava
cansada do esforço de animal libertado.
E agora chegara o momento de decidir se continuaria ou não vendo Ulisses. (...)"
Clarice Lispector em, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Alinhamento
Deixo que teus olhos me toquem
porque vos quero.
Deixo a tua voz forte e doce
pois estremece os ouvidos e a face.
Já foi tempo que deixar era verbo sem destino,
pairava no ar...
conversa fiada...
Saco vazio que não tinha nem pé.
Mas sabe-se que o vento desordenado
o rumo é a sorte
e encontra nos braços de uma curva
o caminho para casa.
Lá se vai uma antiga solidão.
Deixo que me queiras
porque te quero,
tanto quanto os braços se curvam à sorte.
sábado, 19 de junho de 2010
Dois em um
Feche a porta que eu agora vou falar a sua língua.
Quem sabe um dia encontrar a nossa vez,
entre salivas e muitas sílabas,
talvez encontrar a nossa forma.
Será que existe um sabor e um aroma
tão conhecido
que direi:
nem meu,
nem seu,
nosso?
Quem sabe um dia encontrar a nossa vez,
entre salivas e muitas sílabas,
talvez encontrar a nossa forma.
Será que existe um sabor e um aroma
tão conhecido
que direi:
nem meu,
nem seu,
nosso?
terça-feira, 1 de junho de 2010
Pra não saber, para descobrir.
Quanta dor cabe no tempo?
Uma conta, algumas lágrimas.
Qual é o peso da angústia?
Uma medida um coração.
Quanto vale o erro?
Uma dívida, um perdão.
Qual é a largura do desejo?
Um braço, o corpo inteiro.
Qual é a cor da paixão?
Sangue quente, vermelho.
Quanto choro cabe numa dor?
Um travesseiro, um mar de lágrimas.
Qual é o caminho da dúvida?
Duas estradas, nenhuma placa.
Que altura tem a escolha?
Um tombo, a morte.
Qual a intensidade da inquietação?
O infinito, um desespero
Qual a idade da velhice?
O mal humor, algumas rugas.
Qual o limite da razão?
A realidade, uma emoção.
Quanto vale o amor?
Uma dor, um encontro.
Uma conta, algumas lágrimas.
Qual é o peso da angústia?
Uma medida um coração.
Quanto vale o erro?
Uma dívida, um perdão.
Qual é a largura do desejo?
Um braço, o corpo inteiro.
Qual é a cor da paixão?
Sangue quente, vermelho.
Quanto choro cabe numa dor?
Um travesseiro, um mar de lágrimas.
Qual é o caminho da dúvida?
Duas estradas, nenhuma placa.
Que altura tem a escolha?
Um tombo, a morte.
Qual a intensidade da inquietação?
O infinito, um desespero
Qual a idade da velhice?
O mal humor, algumas rugas.
Qual o limite da razão?
A realidade, uma emoção.
Quanto vale o amor?
Uma dor, um encontro.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Branco papel,
São meia-noite e olho para o papel em branco. Talvez eu queira lhe contar algo, talvez ele queira me mostrar algo. Talvez esse infinito que me invadiu queira de mim algumas palavras e frases, na verdade toda a intensidade de meu corpo, dos desejos e da alma. Só sei que são meia-noite. E toda noite é um encanto diferente que me invade, feito sede de contar ao nada, este que me acompanha, todas as minhas histórias e revive-las em apenas m-e-i-a-n-o-i-t-e. Quero rasgar o papel, come-lo com a fome de meus dias sofridos, cortar em pedacinhos do mesmo jeito como a vida se apresenta, depois gostaria de colar parte por parte para descobrir o segredo do todo. Sinto gritando em mim, uma vontade voraz de contar a ele, (o papel), que sua cor me incomoda e que seus espaços vazios eu quero preencher, como os momentos me preenchem e invadem e percorrem meu corpo deixando mente e sentimentos misturados, feito alimento deglutido. A noite cada vez mais silenciosa, agora briga com meu burburinho. Já não há organização para o que sinto, nem cumplicidade a oferecer, nem lamurias para contar. Aqui, um tanto de sorte abraçada na coragem que o papel em branco ficaria vermelho, emcabulado e sem forma.
Branco papel, tão acostumado com palavras, frases, sentidos e formas gramaticais, o que tenho dentro de mim é grande demais para o seu formato quadrado - que seja, retangular. Não encontro palavras para exprimir esse burburinho. Agora já passa da meia-noite e conforme ela se completa para virar noite-inteira, eu não te preenchi se quer com uma letrinha.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
latrocínio
Saborear,
divertir-se e disfarçar,
a pele roçar,
o pescoço torcer.
Mãos suadas e frias,
peito quente e latente.
Sugando com os olhos
o calor que vicia.
Segura, vestida
imaginação despida,
intimando,
trazendo, levando.
Sorte a solta
na esquina apressada,
como o vestido esvoaçado,
inquieto no corpo de menina.
Esse encanto no canto
do perigo instante
suado, pesado,
assassino,
leva mentes ao rompante
da razão emocionante,
da mordida proibida
dada pelo suicida.
O corpo estirado.
suspiro pesado
sem volta ao ato,
desatado o laço.
Na solução dos corpos
o alívio do pecado
certeiro,
previsto e consumado.
divertir-se e disfarçar,
a pele roçar,
o pescoço torcer.
Mãos suadas e frias,
peito quente e latente.
Sugando com os olhos
o calor que vicia.
Segura, vestida
imaginação despida,
intimando,
trazendo, levando.
Sorte a solta
na esquina apressada,
como o vestido esvoaçado,
inquieto no corpo de menina.
Esse encanto no canto
do perigo instante
suado, pesado,
assassino,
leva mentes ao rompante
da razão emocionante,
da mordida proibida
dada pelo suicida.
O corpo estirado.
suspiro pesado
sem volta ao ato,
desatado o laço.
Na solução dos corpos
o alívio do pecado
certeiro,
previsto e consumado.
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