domingo, 11 de julho de 2010

O único problema é que nascera humana.

Sentou cansada no sofá. Na verdade estava exausta. Aqueles dias não estavam sendo fáceis e completavam-se dois meses de insônia. A graça lhe escapava pelas mãos ao ponto de ficar completamente sem graça quando alguém lhe chamava pelo nome, “Graça!”. Depois da nostalgia, sabia que poderia vir a ironia, aquela graça malandra que todo mundo tem guardado. Não pensou no futuro. Só o presente mal cheiroso é que importava. Quem aguenta sentir mal cheiro mais que alguns minutos?!

Decidiu-se pela loucura e foi por telefone que ela falou. Resolveu aquela situação que não podia mais sustentar, ou cheirar se assim posso dizer. O estranho é que junto com uma leve satisfação selvagem, ao desligar o telefone seus pensamentos continuaram a viver, como se nada tivesse acontecido! Além de louca seria cruel?

Não se levantou, nem buscou ar na janela. Não quis contar a um amigo nem se debulhou em lágrimas. Apenas viveu. Pensou que todos deveriam ser daquele jeito. Depois pensou em chorar, mas a vontade não vinha. Sentiu-se muito mal por não ter aguentado mais um pouco. Por ser tão humana que o maldito cheiro ela não pudera suportar. É a vida. Por falar em vida, o cheiro horrível vinha de um animal morto, contei? E foi só depois que ela descobrira o óbito, que decidiu não sentir mais o tal cheiro.
Agora podia viver.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Um corpo nu




Soube que mulheres gostam de usar bolsas. Houve uma época que elas eram enormes feitas sob medida, a medida do desespero. Marina é da parte que sobrou – as que não gostam de bolsas. Nem pra lá nem pra cá, o bom mesmo é guardar as necessidades no bolso.
Além do sangue e das curvas que marcam, mulheres costumam usar penduricalhos que servem como enfeite ou como acréscimo de si mesmas. Marina gosta de pouco e com o pouco sentia-se bem, bem leve. Olhando nas ruas, muitas vezes chegou perto de se arrepender ao ver que tantas outras, muito parecidas com ela, exibindo suas “bolsa-acréscimo”, pareciam ter encontrado a combinação perfeita. Mas se tão logo observasse mais além, o que fazia de costume, via mulheres que mesmo sem nada pendurar, deixava estampado no rosto que faltava-lhes algo. Figuras que denunciavam seus vícios e sua pouca independência nesse mundo contemporâneo. A verdade é que o mundo continua sendo mundo e mulher continua sendo mulher. Esses corpos viciados, andavam tristes pelas ruas e por vezes esbarravam no de Marina, representante de uma pequena porcentagem feminina. Leve como quem voa e como quem não tem e não quer ter nada acrescentado em si. Ela gostava do rascunho e não via graça no desenho pronto, pintado. Achava que um quadro pronto determina o fim da linha. Se alguém imparcial – alguém que não é gente e não existe, pois a imparcialidade é o gosto da ilusão, visse com seus olhos de imaginação essas mulheres que caminham pela cidade com abstinência de bolsa, e outras, apenas algumas, que caminham leves apreciando seus próprios ombros nus, o peso cru de seus corpos, este poderia se confundir.
Marina continuava mulher e ainda gostava de caminhar leve, mas passou a ficar intrigada com a denúncia dos corpos. Sentia que olhando as mulheres, tão femininas quanto ela, podia quase que adivinhar seus nomes secretos. Os traços, pintados ou crus, diziam mais do que gostariam. Tudo escapa do corpo e disfarça-se quase tudo com palavras. Dias se passaram e numa noite dessas, calada, ereta na cama, Marina orgulhou-se de não precisar de bolsas e de ser feliz caminhando com pouco. Naquele instante, lembrou de Orlando, não o tinha mais, somente as lembranças que levava consigo por onde quer que fosse.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Dias como Lóri...

"(...) Agora lúcida e calma, Lóri lembrou-se de que lera que os movimentos histéricos
de um animal preso tinham como intenção libertar, por meio de um desses movimentos, a
coisa ignorada que o estava prendendo — a ignorância do movimento único, exato e
libertador era o que tornava um animal histérico: ele apelava para o descontrole —
durante o sábio descontrole de Lóri ela tivera para si mesma agora as vantagens
libertadoras vindas de sua vida mais primitiva e animal: apelara histericamente para
tantos sentimentos contraditórios e violentos que o sentimento libertador terminara
desprendendo-a da rede, na sua ignorância animal ela não sabia sequer como, estava
cansada do esforço de animal libertado.
E agora chegara o momento de decidir se continuaria ou não vendo Ulisses. (...)"

Clarice Lispector em, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Alinhamento


Deixo que teus olhos me toquem
porque vos quero.
Deixo a tua voz forte e doce
pois estremece os ouvidos e a face.

Já foi tempo que deixar era verbo sem destino,
pairava no ar...
conversa fiada...
Saco vazio que não tinha nem pé.

Mas sabe-se que o vento desordenado
o rumo é a sorte
e encontra nos braços de uma curva
o caminho para casa.

Lá se vai uma antiga solidão.
Deixo que me queiras
porque te quero,
tanto quanto os braços se curvam à sorte.

sábado, 19 de junho de 2010

Dois em um

Feche a porta que eu agora vou falar a sua língua.
Quem sabe um dia encontrar a nossa vez,
entre salivas e muitas sílabas,
talvez encontrar a nossa forma.
Será que existe um sabor e um aroma
tão conhecido
que direi:
nem meu,
nem seu,
nosso?

domingo, 13 de junho de 2010

Relógio de pulso

Já foi tempo.
Tempo demais,
tempo de menos,
findou-se o tempo.

Marcado pela cicatriz,
rasgado pelo ponteiro,
já faz tempo
que foi.

Tempo que será,
tempo que vier,
tempo.
Vigília antiga.

Já testei os segundos,
desisti dos minutos,
deixei correr solto,
e o tempo passou ligeiro.

As horas infinitas
me curaram da dor,
me deram sermão,
secaram as feridas.

Em tempo bom
é hora de sorrir,
em tempo ruim
usa-se muitas roupas.

O tempo no rosto
que esconde a vontade,
que fala sobre saudade,
que deixa escapar a ingenuidade.

Indomável, tempo.
Me olha nos olhos
e passa por mim
sem nem "até logo" dar.

Faz um tempão,
um tanto que não cabe na mão
nem saliva para contar,
nem coração que há de aguentar.

Me dê um minutinho,
só esse
aquele,
qualquer um que eu possa pausar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Pra não saber, para descobrir.

Quanta dor cabe no tempo?
Uma conta, algumas lágrimas.
Qual é o peso da angústia?
Uma medida um coração.

Quanto vale o erro?
Uma dívida, um perdão.
Qual é a largura do desejo?
Um braço, o corpo inteiro.

Qual é a cor da paixão?
Sangue quente, vermelho.
Quanto choro cabe numa dor?
Um travesseiro, um mar de lágrimas.

Qual é o caminho da dúvida?
Duas estradas, nenhuma placa.
Que altura tem a escolha?
Um tombo, a morte.

Qual a intensidade da inquietação?
O infinito, um desespero
Qual a idade da velhice?
O mal humor, algumas rugas.

Qual o limite da razão?
A realidade, uma emoção.
Quanto vale o amor?
Uma dor, um encontro.

sábado, 29 de maio de 2010

Escute

Estou aqui tentando amarrar as palavras de modo que elas pareçam um texto. Puxa daqui, acentua de lá, mas elas insistem em prosa virar.
Meus dedos em comando,
percorrem as ruas do papel
quase fazendo virar poesia,
na verdade acomentedo
de um modo inconsciente,
como deve ser.
E em todo o sentido, em todo o silêncio que as letras guardam, me encontro. Mesmo que haja céticos à espreita ou denúncias de falta de prudência, ainda que a ausência de moral ou de uma mensagem seja o feitiço virando-se contra o feiticeiro, ainda assim terei o silêncio. O silêncio que as vezes dói e arde feito líquido venenoso, mas tão sábio que se cala, reservado à sua dor. 
As palavras brincam no papel. Brincam de serem felizes, de serem completas, de tentar alcançar o muro sem fim do amor. Tudo num completo silêncio que desagrada aqueles que esperavam ouvir berros de bocas no mínimo enfurecidas, (quem escreve é sempre alguém que deseja gritar ao mundo...?). Até hoje, no máximo, eu consegui alguns sussurros com a escrita. Escuta esse silêncio que é seu, que é nosso como o copo de vinho que te ofereço, não é embriagues nem alucinógeno, é o silêncio profundo das palavras. Quando me ler, não imagine a minha voz pois a sonoridade atrapalha escutar o silêncio, também não procure a compreensão, ela nunca está pronta e é essa a motivação das frases. Leia-me sem som e sem voz. A mudez é a eficiência do texto. E somente o silêncio das palavras é que nos reserva a sabedoria antiga, velha, com tanto cheiro de mofo que é preciso lutar contra a alergia, alergia de “desentender”, “desencantar”, de “desconstruir”.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Olhos de horizonte

Eu estou na beira do mar
esperando o barco passar.
Ele passa soltando fumaça,
acenando.
Marinheiros em balsas
só para a foto tirar,
apertar o coração pequeno
de um lado e de outro,
essa esperança sufocada.
Eu estou do lado de cá
esperando o barco passar,
só pra ver se ele vem.
Sinal de fumaça
ou carta cheia de graça,
agora ele nada.

domingo, 23 de maio de 2010

Grand finale

Não lhe disse ser feliz, pois feliz ela não era. Fechou o corpo com jeito, decidida a não procurar mais pelo desejo escasso, já sendo forjado. Abriu-lhe os braços, corpo em oferta, para o afago de um coração, talvez dois. Não foi gentil, pois não havia maneira de ser. Disse poucas palavras, repetidas, gastas, puídas pelo tempo e o cansaço, virou-se e foi de volta pra casa.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Pequeno querer

Ele é tão bom pra mim que eu nem sei qual é a resposta que se dá a bondade. Quando ele sorri, o meu rosto se mexe em êxtase, involuntariamente, expressando felicidade. Nos olhos de querer, eu vejo quase que uma forma, como um alvo, me sinto como o centro do alvo se sente, pequeno e desejado. Quando ele me fala aos ouvidos, não sei de mais nada, não sinto o chão nem minha pele, mesmo estando grudados em mim. E quando ele se irrita, eu fico olhando, me desviando das faíscas e desvendando algo novo, através de sua loucura.


segunda-feira, 17 de maio de 2010

Branco papel,


São meia-noite e olho para o papel em branco. Talvez eu queira lhe contar algo, talvez ele queira me mostrar algo. Talvez esse infinito que me invadiu queira de mim algumas palavras e frases, na verdade toda a intensidade de meu corpo, dos desejos e da alma. Só sei que são meia-noite. E toda noite é um encanto diferente que me invade, feito sede de contar ao nada, este que me acompanha, todas as minhas histórias e revive-las em apenas m-e-i-a-n-o-i-t-e. Quero rasgar o papel, come-lo com a fome de meus dias sofridos, cortar em pedacinhos do mesmo jeito como a vida se apresenta, depois gostaria de colar parte por parte para descobrir o segredo do todo. Sinto gritando em mim, uma vontade voraz de contar a ele, (o papel), que sua cor me incomoda e que seus espaços vazios eu quero preencher, como os momentos me preenchem e invadem e percorrem meu corpo deixando mente e sentimentos misturados, feito alimento deglutido. A noite cada vez mais silenciosa, agora briga com meu burburinho. Já não há organização para o que sinto, nem cumplicidade a oferecer, nem lamurias para contar. Aqui, um tanto de sorte abraçada na coragem que o papel em branco ficaria vermelho, emcabulado e sem forma.

Branco papel, tão acostumado com palavras, frases, sentidos e formas gramaticais, o que tenho dentro de mim é grande demais para o seu formato quadrado - que seja, retangular. Não encontro palavras para exprimir esse burburinho. Agora já passa da meia-noite e conforme ela se completa para virar noite-inteira, eu não te preenchi se quer com uma letrinha.

terça-feira, 11 de maio de 2010



Está tão pesado,
tão pesado ser eu
é...eu mesma
sendo uma
sendo todas as vontades
todas as minhas verdades
todo esse mar.
Me afogo
em mim,
eu me afogo.





domingo, 9 de maio de 2010

"O início o fim e o meio..."


Deus e mãe são tão parecidos.
Me abraçam me amolam, me ensinam.
Deus e mãe é como o dia com sol, o dia com chuva, a noite, o sono...

- Mãe, onde está Deus, quero saber onde ele fica. Ela responde com calma de mãe - Ele está aqui dentro, e aponta para o peito ingênuo do filho.

Mãe e Deus são assim tão grandes, são assim incalculáveis, que o abraço quase não afaga o seu tamanho de Deus, o seu tamanho de mãe.
Encontro com Deus todos os dias, no ar, no silêncio, no medo de amar, na coragem, em mil, em um só, em todos.
Mãe é o início, sem escolha é o meio, junto com Deus ela é o fim. E Deus e mãe fazem o homem, fazem o homem...

Deus, cuida da minha mãe?

domingo, 2 de maio de 2010

Sem mais lararará...


O haver 

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

Vincius, sempre Vinicius de Moraes.
           

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Obra única

O frio fazia tremer as pernas e os braços, ingênuos membros. Ao deitar tudo era único. O momento e as paredes, aquela cor em penumbra, os lençóis guardados e predestinados a nos acolher. Foi tão estranho aquele dia, o mundo não havia parado mas rodava solto em volta da história que eu construía, que nós tecemos parte por parte. Girava tudo ao redor, feito embriaguez certa, fruto do tinto e tantas taças derramadas calor a dentro.
A avidez do olhar, trabalhando junto com as mãos, oras de pincel, oras de lápis que rabisca um traço a procura do desenho, não deixava dúvidas sobre a arte final. O quadro clamava pela pintura, suplicando que fosse sutil na escolha de cada cor, harmonizados estavam: quadro, artista e tinta. O vinho fez dizer mais do que o planejado, mas não mais do que sentia. Foi num balanço de marinheiro, num caminhar de velho moço, num amor feito de flor...a menina calou _ _ _ _ _
A alma acelerou fundo no peito inflado e vazio, inflado e vazio. A sorte a solta pelos campos de verdades e mentiras, havia enfim se cumprido e um riso frouxo escapou da boca seca, alma limpa e o corpo já não mais tímido.

domingo, 18 de abril de 2010

Todo dia 17 de abril

"Sou ariano. E ariano não pede licença, entra, arromba a porta. Nunca tive medo de me mostrar. Você pode ficar escondido em casa, protegido pelas paredes, mas você está vivo e essa vida é pra ser mostrada. Esse é o meu espetáculo. Só quem se mostra se encontra, por mais que se perca no caminho."
Cazuza

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Você


Quero oferecer-te versos,
os melhores que eu puder pintar.
Em coro,
eu quero sonar teu nome
já grudado na minha saudade.
Quero as flores secas,
desabrochadas,
vivendo pelo teu sorriso torto.
Quero o meu querer
afoito e atrevido,
o que nunca foi vivido.
Carinho.
Meu olfato é do seu cheiro
meu beijo é do teu gosto
meu corpo da tua mão
meu querer,
você.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

latrocínio

Saborear,
divertir-se e disfarçar,
a pele roçar,
o pescoço torcer.

Mãos suadas e frias,
peito quente e latente.
Sugando com os olhos
o calor que vicia.

Segura, vestida
imaginação despida,
intimando,
trazendo, levando.

Sorte a solta
na esquina apressada,
como o vestido esvoaçado,
inquieto no corpo de menina.

Esse encanto no canto
do perigo instante
suado, pesado,
assassino,

leva mentes ao rompante
da razão emocionante,
da mordida proibida
dada pelo suicida.

O corpo estirado.
suspiro pesado
sem volta ao ato,
desatado o laço.

Na solução dos corpos
o alívio do pecado
certeiro,
previsto e consumado.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ser gente

Quando o mar não faz mais tanta força para chegar até minhas pernas, quando ser gentil virou sinônimo de compaixão, quando a poesia dói no peito como choro preso da covardia, a vida cala com expressão de sermão, puxão de orelha...É um sinal que viver é caminho certo (ou acertado), desde a maternidade e o primeiro choro. "¹Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga idéia de paraíso que nos persegue, bonita e breve (...)".
Procuro me agarrar ao passado tentando não perder a segurança já que o presente é sempre tão cansativo. O presente é a tarefa árdua e ao mesmo tempo pode ser o prazer único. Lá de longe vejo o futuro, tão charmoso sempre sedutor.
Vida, eu estou chegando...



¹- Escrito por Cazuza.